Após julgamento de três dias e clima de tensão, investigador da Polícia Civil é condenado por morte de PM em Cuiabá

Após três dias de julgamento, o Tribunal do Júri condenou o investigador da Polícia Civil Mário Wilson Vieira da Silva Gonçalves a dois anos de prisão em regime aberto pela morte do policial militar Thiago de Souza Ruiz, ocorrida em 2023. Os jurados desclassificaram a acusação de homicídio doloso para culposo, e a pena foi definida pelo juiz Marcos Faleiros, que também revogou medidas cautelares impostas ao réu.
Os jurados acolheram a tese de desclassificação apresentada pela defesa e entenderam que não houve intenção de matar, rebaixando a acusação de homicídio doloso para homicídio culposo. Com isso, a pena aplicada foi de dois anos, substituída por restrições de direitos.
Na sentença, o juiz Marcos Faleiros também revogou medidas cautelares que estavam impostas ao réu, incluindo o uso de tornozeleira eletrônica. O Ministério Público de Mato Grosso já anunciou recurso contra a decisão.
O julgamento, realizado no Fórum da capital, durou três dias e foi marcado por forte tensão entre acusação e defesa, com discussões recorrentes e troca de provocações no plenário.
“Pra não morrer”: versão do réu
Durante o interrogatório, Mário Wilson afirmou que agiu em legítima defesa ao efetuar os disparos contra o policial militar.
“Pra não morrer. Eu atirei pra não morrer. Ele estava me enforcando pelas costas”, declarou em plenário.
Segundo o investigador, ele foi até uma conveniência de posto de combustível para comprar cigarro quando encontrou a vítima, que também seria policial. Ele relatou que, após uma discussão e luta corporal, foi derrubado e imobilizado, momento em que efetuou os disparos.
Thiago Ruiz foi atingido por tiros após o confronto e morreu depois de ser socorrido.
Tese da acusação: 10 disparos e comportamento agressivo
O promotor de Justiça Vinícius Gahyva Martins sustentou a acusação de homicídio doloso e destacou a quantidade de disparos efetuados pelo réu — dez ao todo — como um dos principais pontos para demonstrar excesso na reação.
O Ministério Público também apresentou o depoimento de uma testemunha que afirmou ter ouvido declarações do investigador antes do confronto, sugerindo postura agressiva.
Segundo a testemunha, o réu teria dito:
“Eu sou policial! Em uma situação de confronto, eu passaria por cima de qualquer um!”
Ainda conforme o MPE, imagens e depoimentos indicam que, após a escalada da discussão dentro da conveniência, houve luta corporal e sucessivos disparos.
Discussões, ironias e clima hostil no plenário
O julgamento também foi marcado por intensos bate-bocas entre o promotor e a defesa, conduzida pelo advogado Cláudio Dalledone.
Em um dos momentos mais tensos, após intervenção da acusação, o promotor afirmou:
“Vocês estão criando situação para abandonar o plenário.”
Dalledone respondeu em tom elevado e irônico:
“O senhor acha que com isso aqui eu vou abandonar o plenário? Eu não sou de abandonar plenário. Eu sou tocado de plenário.”
Ao longo das sessões, houve ainda ironias e interrupções frequentes, levando o juiz a intervir para restabelecer a ordem no tribunal.
O caso
O crime ocorreu no dia 27 de abril de 2023, dentro de uma conveniência de um posto de combustível localizado em frente à Praça 8 de Abril, em Cuiabá Cuiabá.
Thiago Ruiz e o investigador Mário Wilson estavam no local quando uma discussão entre os dois evoluiu para luta corporal. Testemunhas relataram que, após troca de provocações e tentativa de contenção, houve disparos que resultaram na morte do policial militar.
O caso ganhou repercussão por envolver dois agentes da segurança pública e pela sequência de versões conflitantes apresentadas ao longo do processo.
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