Mega Diário Cuiabá · Quinta-feira, 5 de novembro de 2026
AGRONÉGOCIO

Consumo doméstico deve frear disparada da arroba em 2027, apesar de oferta restrita, projeta Rabobank

Embora a retenção de fêmeas aponte para queda de 3% na produção de carne bovina e cotações próximas a R$ 400/@, perda de competitividade no varejo acelera migração do brasileiro para o frango e a carne suína O apetite do consumidor brasileiro será o principal fiel da balança — e o maior fator de contenção […]

Embora a retenção de fêmeas aponte para queda de 3% na produção de carne bovina e cotações próximas a R$ 400/@, perda de competitividade no varejo acelera migração do brasileiro para o frango e a carne suína

O apetite do consumidor brasileiro será o principal fiel da balança — e o maior fator de contenção — para a escalada de preços na pecuária de corte em 2027. De acordo com as projeções de mercado divulgadas pelo banco holandês Rabobank, especializado em agronegócio, a cadeia produtiva enfrentará um cabo de guerra: de um lado, o encolhimento na oferta de gado pronto para o abate dará sustentação às cotações no campo; de outro, o orçamento doméstico limitado e a perda de competitividade nos açougues devem impedir altas descontroladas, empurrando as famílias para proteínas mais baratas.

A instituição financeira estima que o consumo per capita de carne bovina no Brasil sofrerá uma retração de 6,2% em 2027, caindo dos 33,4 quilos por habitante estimados para o fechamento de 2026 para 31,4 quilos no ano seguinte. Como o mercado interno absorve aproximadamente 61% de toda a carne produzida no país, a resistência do consumidor local na hora da compra funciona como um teto natural para os frigoríficos e pecuaristas, mesmo diante de uma demanda internacional aquecida.

A migração no prato do brasileiro

O principal entrave para o escoamento doméstico da carne vermelha é o distanciamento expressivo de seus preços em relação às proteínas concorrentes. Segundo levantamento apresentado por Wagner Yanaguizawa, analista de proteína animal do Rabobank, a carne bovina vem perdendo competitividade no varejo de forma contínua desde o final de 2024, movimento acentuado ao longo de 2026 pela ampla oferta de aves e suínos.

Entre janeiro de 2024 e julho de 2026, a competitividade da carne de frango em relação à bovina avançou cerca de 49%, enquanto a vantagem da carne suína cresceu 20%.

“Não estamos falando de uma diferença pequena. Estamos realmente vendo uma migração de parte da população para as proteínas mais baratas, que deve ser o cenário que vai se manter no próximo ano”, destacou Yanaguizawa em coletiva de imprensa sobre as perspectivas do setor.

Esse comportamento já é corroborado por análises do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq-USP). Pesquisadores do centro apontam que, quando o poder de compra das famílias se estreita, a indústria frigorífica encontra forte dificuldade para repassar a valorização do animal vivo ao atacado e ao varejo, limitando o fôlego para novas altas expressivas na arroba.

Ciclo pecuário, arroba a R$ 400 e fator climático

Se a demanda interna atua como freio, os fundamentos de oferta seguem jogando a favor da valorização do gado. A pecuária brasileira atravessa a fase de virada do ciclo produtivo, caracterizada pela retenção de fêmeas nos pastos para a recomposição de matrizes e produção de bezerros. Com o estoque de fêmeas renovando mínimas históricas e a escassez de animais de reposição — cujo indicador do bezerro medido pelo Cepea em Mato Grosso do Sul já acumula alta superior a 15% no ano, superando a casa dos R$ 3,5 mil por cabeça —, haverá menos gado disponível nas linhas de abate no curto prazo.

O Rabobank projeta que a produção nacional de carne bovina recuará 3% em 2027, totalizando 11 milhões de toneladas equivalente carcaça (TEC), frente às 11,3 milhões de TEC estimadas para 2026.

Nesse cenário de oferta enxuta, a projeção do banco é que o preço médio do boi gordo se mantenha ligeiramente abaixo de R$ 400 por arroba na média de 2027, embora picos acima desse patamar não sejam descartados. O ponto crítico ocorrerá no primeiro trimestre do ano: enquanto o mercado futuro já sinaliza cotações rompendo a barreira dos R$ 400/@ nos primeiros meses de 2027, o período é historicamente marcado pelo menor consumo doméstico do ano (devido às despesas sazonais das famílias). Se a demanda interna frustrar as expectativas nesse início de ano, o mercado físico poderá sofrer pressão de baixa.

Além da retenção de matrizes, o clima entra como variável de risco. O monitoramento meteorológico alerta para os efeitos do fenômeno El Niño, que pode provocar períodos prolongados de veranico na transição de 2026 para 2027. Caso a qualidade das pastagens seja comprometida, o atraso na engorda a pasto reduzirá ainda mais a disponibilidade de animais terminados no primeiro trimestre.

Exportações não anulam dependência local

No front externo, a expectativa do Rabobank é de que os embarques brasileiros de carne bovina cresçam 1,5% em 2027, amparados pelo apetite constante da China e pela restrição de oferta global. Contudo, o mercado internacional também apresenta seus próprios desafios: nos Estados Unidos, que ampliaram as compras do Brasil em 2026, espera-se uma leve desaceleração na demanda doméstica em 2027; já na China, o preenchimento rápido das cotas de importação sujeita volumes excedentes a sobretaxas tarifárias, exigindo cautela nas negociações de virada de ano.

A conclusão dos analistas é que, por mais que o câmbio favorável e a demanda asiática garantam um piso sólido para o setor exportador, é o balcão do açougue brasileiro que ditará até onde o preço do boi conseguirá subir.

Indicador (Projeções Rabobank) Estimativa 2026 Projeção 2027 Variação / Destaque
Consumo per capita (Brasil) 33,4 kg/hab 31,4 kg/hab Queda de 6,2% na demanda individual
Produção Nacional 11,3 milhões TEC 11,0 milhões TEC Retração de 3% (retenção de fêmeas)
Exportações Brasileiras Volume recorde Crescimento de 1,5% Sustentadas pela China; EUA desaceleram
Cotação do Boi Gordo Firme no 2º semestre Média pouco abaixo de R$ 400/@ Picos acima de R$ 400/@ previstos no 1º tri
Competitividade (2024–2026) — — Frango ganhou 49% e suíno 20% frente ao boi

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