Construção em EPS avança no Brasil e disputa espaço com a alvenaria tradicional por produtividade e eficiência

A busca por obras mais rápidas, sustentáveis e com menor dependência de mão de obra vem impulsionando o crescimento dos sistemas construtivos industrializados no Brasil. Entre as tecnologias que mais ganham espaço está o uso de painéis em EPS (poliestireno expandido), solução que vem sendo adotada em residências, edifícios comerciais, hotéis e empreendimentos de diferentes padrões construtivos.
Embora ainda represente uma parcela menor do mercado quando comparada à alvenaria convencional, a tecnologia vem atraindo a atenção de construtores, arquitetos e investidores por reunir características como rapidez na execução, conforto térmico e redução de desperdícios.
Em Mato Grosso, empresas especializadas apostam na expansão desse segmento. À frente de uma fábrica de painéis estruturais que atende toda a região Centro-Oeste, o engenheiro e empresário Adalberto Machado da Silva Filho afirma que a industrialização representa uma transformação inevitável para o setor.
"Como engenheiro e empresário, me foi apresentado o sistema construtivo em EPS e vi a oportunidade de desbravar um setor que precisa investir em tecnologias. Estamos há seis anos trabalhando com esse sistema em todo o Centro-Oeste do Brasil, levando soluções e inovação para a construção civil."
Adalberto instalou a fábrica em uma das regiões que vem se destacando na construção de lata padrão, a curto prazo, Primavera Do Leste (a 240 km de Cuiabá). Segundo ele, a principal diferença está na industrialização da obra. Os painéis são produzidos em fábrica a partir do projeto arquitetônico e chegam ao canteiro com medidas definidas, incluindo recortes para portas e janelas.
"Recebemos o projeto arquitetônico e produzimos as paredes já nas dimensões finais, inclusive com os recortes para portas e janelas. Quando chegam ao canteiro, as peças são montadas e recebem apenas as etapas finais de execução."
Para o empresário, a tecnologia reduz etapas construtivas e diminui significativamente o consumo de materiais tradicionalmente utilizados.
"Os painéis monolíticos em EPS, quando certificados, são estruturais. Eles recebem toda a carga das lajes em edificações de até quatro pavimentos, reduzindo significativamente a necessidade de vigas e pilares. Isso traz mais agilidade para a obra e economia no uso de madeira e outros materiais."
Especialista destaca que economia está no conjunto da obra
Professor dos cursos de Engenharia Civil e Arquitetura do Centro Universitário de Várzea Grande (UNIVAG), o engenheiro civil explica que o EPS já deixou de ser uma tecnologia experimental e hoje pode substituir a alvenaria convencional em diversos tipos de empreendimentos.
"O sistema em EPS pode sim substituir a construção tradicional em alvenaria. Hoje se utiliza o EPS em obras residenciais e comerciais, como hotéis, edifícios e diversos outros empreendimentos. Contudo, antes de adotá-lo é importante considerar fatores como o tamanho da obra, as características do empreendimento, a disponibilidade de mão de obra qualificada e a viabilidade econômica."
Segundo o professor, a escolha do sistema depende de análise técnica e financeira, mas em muitos casos os ganhos são evidentes.
"Em muitos casos, o EPS apresenta vantagens significativas, especialmente quando há necessidade de rapidez na execução, redução do peso da estrutura e maior desempenho térmico, que na região de Cuiabá é muito importante."
Um dos principais debates envolvendo a tecnologia diz respeito ao custo. Embora muitas campanhas comerciais apontem grandes economias, especialistas explicam que a comparação exige cautela.
De acordo com o professor, o custo dos materiais empregados costuma ser semelhante ao da alvenaria convencional.
"Com relação ao custo de material, os valores comparados à alvenaria convencional não apresentam uma economia significativa. Praticamente são os mesmos valores. O ganho está associado à redução do tempo do serviço."
Ele explica que, por se tratar de um sistema industrializado, a obra pode ser concluída em prazo substancialmente menor.
"Pode-se obter reduções de até 30% no tempo de execução em relação à alvenaria convencional. Com isso, o custo global da obra tende a ser competitivo ou até inferior, principalmente pela redução do prazo, pela economia nas fundações devido ao menor peso da edificação e pela diminuição dos custos indiretos e da mão de obra."
Menos resíduos e maior conforto térmico
Além da produtividade, a sustentabilidade aparece como um dos principais argumentos em favor da tecnologia.
Segundo Adalberto, o sistema pode reduzir em até 60% o consumo de água durante a obra, diminuir cerca de 90% da geração de entulho e reduzir em até 80% a utilização de madeira para formas e escoramentos.
"As paredes possuem excelente desempenho térmico e acústico, reduzindo a necessidade de climatização dos ambientes ao longo da vida útil da edificação. Isso representa economia de energia e menor impacto ambiental."
"Os benefícios já são amplamente observados em obras executadas com essa tecnologia. Há menor geração de resíduos sólidos da construção, redução do consumo de água e menor utilização de madeira para formas."
Em regiões de clima quente, como Mato Grosso, o isolamento térmico também se torna um diferencial relevante.
"Outra vantagem do EPS é justamente o conforto térmico que ele proporciona, reduzindo a transferência de calor para o interior da edificação."
Segurança depende de projeto e execução corretos
Apesar da expansão do sistema, especialistas destacam que ainda existe desinformação sobre o papel do EPS dentro da estrutura da edificação.
Segundo o professor, o material não deve ser confundido com o elemento estrutural propriamente dito.
"Uma observação importante é destacar que o EPS não é um elemento estrutural. Ele funciona como uma forma leve e permanente, enquanto a resistência da estrutura é garantida pelo concreto armado e pelo aço."
Ele ressalta que o sistema atende plenamente às exigências técnicas brasileiras quando corretamente projetado e executado.
"Se utilizado corretamente, o sistema em EPS é seguro e atende às normas técnicas. Como qualquer sistema construtivo, sua segurança depende do correto dimensionamento estrutural e da execução conforme as especificações técnicas e normas vigentes."
Já Adalberto destaca a durabilidade do material empregado na fabricação dos painéis.
"O EPS utilizado é um material virgem, classificado como F3, com aditivos retardantes de chama. Ele não propaga fogo nem absorve água, reduzindo problemas de infiltração e protegendo toda a estrutura. A durabilidade é igual ou superior à da alvenaria convencional."
Escassez de mão de obra acelera mudança no setor
Para especialistas e empresários, o avanço da construção industrializada está diretamente ligado a uma realidade que preocupa o setor: a dificuldade crescente de contratação de mão de obra.
Na avaliação do professor do UNIVAG, essa transformação tende a se consolidar nos próximos anos.
"É muito improvável que o EPS seja uma tendência passageira. Penso que seja algo estrutural que mude a forma de construir no Brasil. Cada vez menos pessoas estão se interessando em trabalhar na construção civil. Pedreiros e serventes estão mais difíceis de encontrar."
Segundo ele, a necessidade de aumentar a produtividade continuará impulsionando a adoção de sistemas industrializados.
"O setor busca tecnologias que ofereçam maior produtividade, melhor controle de qualidade e redução de desperdícios. O sistema em EPS atende justamente a esses requisitos."
O professor acredita que a alvenaria tradicional continuará presente no mercado, mas que o espaço ocupado pelo EPS deve crescer gradualmente.
"No futuro, acredito que os dois sistemas continuarão coexistindo, mas o EPS tende a ganhar participação à medida que a mão de obra se qualifica e os benefícios da tecnologia se tornam mais conhecidos."
A mesma percepção é compartilhada por Adalberto, que vê a industrialização como um caminho sem volta para a construção civil brasileira.
Para fabricantes, engenheiros e arquitetos, a principal conclusão é que o EPS não necessariamente reduz de forma expressiva o custo direto dos materiais, mas oferece um conjunto de vantagens que podem tornar a obra mais competitiva: menor prazo de execução, redução de desperdícios, economia indireta de mão de obra, melhor desempenho térmico e maior previsibilidade do processo construtivo. Em um setor pressionado por produtividade e eficiência, esses fatores vêm tornando a tecnologia cada vez mais relevante no cenário nacional.
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