Mega Diário Cuiabá · Quinta-feira, 5 de novembro de 2026
VIRALIZOU

De Olinda pro Oscar: camisa da Pitombeira quase ficou fora de 'O Agente Secreto'; vendas cresceram 200% após o filme

Após aparecer no filme de Kleber Mendonça Filho, vestida por Wagner Moura, a camisa da Pitombeira disparou em popularidade. A GQ Brasil conversou com personagens por trás da troça para entender como a peça virou fenômeno.

wagner

G1

“Tá na boca do povo”, diz o ditado popular. Nos últimos meses, a expressão passou a fazer sentido literal para a Pitombeira dos Quatro Cantos, troça tradicional do carnaval de Olinda cuja camisa voltou a circular com força nas conversas, nas redes sociais e nas ruas depois de aparecer no filme O Agente Secreto, vestida por Wagner Mourao. Capa da GQ Brasil de março, o diretor Kleber Mendonça Filho revelou, porém, que a peça quase não entrou no filme. “Nunca falei para ninguém, mas a outra possibilidade era uma camiseta do restaurante Lamas, que fica no Largo do Machado, no Rio”.

Mas deu bom: a camisa vintage amarela chegou as telonas e foi um completo sucesso. Wagner Moura, em entrevista ao Fantástico no último domingo (8) afirmou que já sabia que ela faria sucesso assim que a vestiu em cena pela primeira vez. Estava mais que certo. “A gente pode dizer que teve algo em torno de 200% de aumento, em relação ao que tínhamos pedido”, afirma Hermes Neto, presidente da Pitombeira dos Quatro Cantos.

No carnaval deste ano, seguinte à estreia do filme, o responsável diz que o público que acompanhou o desfile também cresceu. “A quantidade de pessoas que nos acompanharam este ano foi realmente o dobro do que normalmente acompanha. As pessoas ficavam esperando a troça passar para bater palma.”

Na cerimônia do Oscar deste ano, marcada para 15 de março, o longa, de Kleber Mendonça Filho, concorre em quatro categorias: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Elenco e Melhor Ator, pela atuação de Wagner Moura.

A troça estourou

 

Da janela do apartamento onde mora, em cima do Cinema São Luiz, no centro do Recife, Leo Cavalcanti, mais conhecido como ‘Anfitrião de Pernambuco’, passou a notar um movimento diferente nas ruas nos últimos meses: cada vez mais pessoas vestindo a camisa da Pitombeira. Quando o filme estreou oficialmente, em 6 de novembro do ano passado, o interesse cresceu de vez. No dia seguinte, as camisas começaram a ser vendidas na sede da troça. Leo foi um dos que correram para garantir uma. Comprou duas: uma branca, cor original, e outra amarela, lançada depois com inspiração retrô. “Todo mundo queria ter aquela peça que fazia parte do filme”.

Na sede da Pitombeira, a repercussão do filme foi percebida rapidamente. Segundo o presidente, o primeiro sinal veio logo após a exibição para convidados. “As pessoas começaram a mandar foto dizendo que Wagner Moura estava aparecendo com a camisa. Muita gente perguntando de que ano era aquela camisa”, conta. A diretoria decidiu então produzir 300 unidades para conselheiros e integrantes, mas a demanda cresceu rapidamente. “A gente acabou ficando sem camisa”, lembra.

De acordo com Hermes, a escolha da peça que aparece no filme provavelmente está ligada a uma pesquisa feita pela produção sobre a história da agremiação. Entre 1984 e 1988, a Pitombeira viveu um dos períodos de maior destaque no carnaval de Olinda. “Foi um dos anos de mais glamour da Pitombeira”, reforça. A camisa amarela, inspirada nesse período, acabou se tornando a mais procurada depois da estreia do longa, superando até a tradicional camisa preta da troça.

Fundada em Olinda em 1947, a Pitombeira dos Quatro Cantos é uma das troças mais tradicionais do carnaval pernambucano. Surgida do encontro entre amigos que defendiam o carnaval de rua como expressão da cultura popular, a agremiação se consolidou ao longo das décadas nas ladeiras da cidade, mantendo o frevo, as orquestras e a ocupação das ruas como marcas centrais de seus desfiles. Reconhecida como Patrimônio Vivo de Pernambuco, a troça se tornou uma referência cultural e afetiva para gerações de foliões e moradores de Olinda.

Mais gente com Pitombeira

 

Leo percebeu esse mesmo movimento da janela de casa. Segundo ele, o desfile teve um clima diferente neste ano, com mais foliões vestindo a camisa e um sentimento maior de orgulho em torno da tradição. “Havia uma celebração mais forte da nossa cultura”.

Para ele, o episódio mostra como a cultura pop pode ampliar a visibilidade de manifestações locais. “A manutenção das nossas tradições estão inteiramente ligadas à existência de pessoas vivendo elas. Isso foi um grande exemplo, que trouxe curiosidade pela história, interesse pela camisa e desejo de viver a experiência de estar no desfile da troça no carnaval. A cultura pop é uma força motriz, que tem o poder de dar visibilidade em massa para o que já existe”, diz.

Ele também percebeu nas ruas o aumento da curiosidade pela história da troça, além do interesse pelas camisas e até mais gente no Cinema São Luiz e nos locais de filmagem no Recife.

Além do carnaval

 

Para Hermes, a repercussão pode ajudar a consolidar ainda mais o nome da Pitombeira no cenário cultural pernambucano. “É importante dizer: não é bloco, é troça”, ressalta. Segundo ele, a agremiação já tinha um lugar forte dentro do carnaval, mas a aparição no cinema acabou funcionando como um impulso extra.

Além do desfile, a Pitombeira mantém atividades culturais ao longo do ano em sua sede, com aulas de música e de passistas para jovens da região. “Muitos meninos que poderiam estar em caminhos errados estão lá aprendendo música, dançando frevo”, diz Hermes. Com o aumento da visibilidade, ele espera que o interesse também se traduza em mais apoio para essas iniciativas.

Para ele, a repercussão do filme pode ser apenas o começo de uma nova etapa para a agremiação. “Já está na hora de a Pitombeira ter um curta ou um filme contando sua história, desde o nascedouro, mostrando essa vanguarda que ela sempre representou dentro do frevo”.

Relacionadas