Mega Diário Cuiabá · Quinta-feira, 5 de novembro de 2026
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Morre homem que organizou o próprio velório após descobrir câncer terminal: "Tudo valeu a pena"

Design sem nome (31)

A forma como escolheu enfrentar a fase mais difícil da vida transformou Tiago Martins Pitthan em símbolo de coragem e ressignificação da morte. O empresário e criador de conteúdo morreu neste domingo (6), aos 47 anos, em Campo Grande (MS), após mais de um ano convivendo com um câncer de estômago em estágio avançado.

Dias antes de morrer, Tiago gravou um último vídeo diretamente do hospital para se despedir dos amigos e seguidores. Na mensagem, afirmou estar em paz e resumiu sua trajetória em poucas palavras.

"Estou bem, em paz, feliz. Valeu a pena. Tudo valeu a pena. Tive uma vida boa e é isso. Eu venci. Um beijo do Bom Sujeito."

A despedida emocionou milhares de pessoas nas redes sociais e ganhou repercussão nacional por representar a maneira como ele decidiu viver os últimos meses de sua vida: celebrando cada momento, em vez de lamentar o diagnóstico.

Festa no próprio velório

A história de Tiago ganhou destaque em todo o país após ele organizar uma celebração para o próprio velório enquanto ainda estava vivo.

No dia 30 de maio, um antigo galpão de uma cervejaria, em Campo Grande, foi transformado em um grande encontro entre familiares, amigos e pessoas que conheceram sua história pela internet. Em vez de flores e silêncio, o evento teve música ao vivo, apresentações de samba, bossa nova, rock, rodas de conversa, flash mob e até um artista pintando a festa em tempo real.

A proposta era simples: participar da própria despedida.

Segundo Tiago, a ideia surgiu porque não queria que sua história fosse lembrada apenas após sua morte. Preferiu ouvir pessoalmente as homenagens, reencontrar pessoas importantes e agradecer por tudo o que viveu.

Diagnóstico mudou os planos

O câncer foi descoberto em março de 2024, após meses de sintomas que inicialmente pareciam problemas digestivos. Durante uma viagem de réveillon a Bonito (MS), Tiago percebeu que já não conseguia se alimentar normalmente, sentindo saciedade precoce e episódios frequentes de vômito.

Os exames identificaram um adenocarcinoma gástrico, o tipo mais comum de câncer de estômago.

Inicialmente, a expectativa era realizar uma cirurgia para retirada do órgão, mas durante o procedimento os médicos encontraram metástases no intestino, no peritônio e sinais de comprometimento pulmonar, tornando impossível um tratamento curativo.

A partir daquele momento, passou a receber quimioterapia paliativa e imunoterapia para controlar a progressão da doença e preservar sua qualidade de vida.

"Lá em cima não tem câncer"

Mesmo sabendo que não havia possibilidade de cura, Tiago decidiu aproveitar intensamente o tempo que ainda tinha.

Continuou trabalhando sempre que possível, manteve atividades físicas enquanto o corpo permitiu e realizou sonhos antigos.

Um deles foi aprender a tocar guitarra. Sem nunca ter estudado música antes, começou as aulas após o avanço da doença e conseguiu subir ao palco durante a festa de despedida para tocar diante dos amigos.

Também voltou a Bonito para viver duas experiências que desejava havia anos. Desceu cerca de 70 metros de rapel no Abismo Anhumas e, no dia seguinte, realizou um salto de paraquedas.

Em um dos relatos que viralizaram nas redes sociais, resumiu a sensação.

"Lá em cima não tem câncer. Só tem eu e aquele mundão."

Organização até os últimos dias

Nos meses finais, Tiago também organizou questões práticas para facilitar a vida da família.

Deixou senhas, orientações sobre documentos, definiu o destino de objetos pessoais e conversou abertamente sobre o fim da vida. Apenas o velório tradicional ficou sob responsabilidade dos familiares.

Ele havia retornado para Campo Grande para ficar próximo dos pais. Inicialmente, queria ajudá-los, mas acabou sendo cuidado principalmente pela mãe durante o tratamento.

Em diversas entrevistas, Tiago dizia que não tinha medo da morte, mas do sofrimento que poderia antecedê-la. Seu objetivo era permanecer ativo e independente pelo maior tempo possível.

Conseguiu.

Até onde o corpo permitiu, encontrou amigos, viajou, aprendeu um instrumento, realizou aventuras, participou da própria despedida e deixou registrada uma mensagem que agora ecoa como seu legado.

"Valeu a pena. Tudo valeu a pena."

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