Mega Diário Cuiabá · Quinta-feira, 5 de novembro de 2026
SAFRA 2026/27

Puxada por Mato Grosso, produção brasileira de soja deve bater recorde de 184,95 milhões de toneladas, projeta StoneX

Avanço rápido das semeadoras e retorno das chuvas elevam expectativa de rendimento nas lavouras mato-grossenses, mas custo de produção salta para R$ 8,2 mil por hectare e risco de El Niño mantém produtores em alerta

A produção brasileira de soja no ciclo 2026/27 deve alcançar o volume histórico de 184,95 milhões de toneladas, impulsionada diretamente pela recuperação do ritmo de plantio e pelas boas condições iniciais das lavouras em Mato Grosso. O novo número, divulgado nesta terça-feira (3) pela consultoria e corretora StoneX, representa uma revisão positiva de 0,9% em relação à estimativa anterior e confirma o potencial de um novo recorde nacional para a oleaginosa. Além do principal estado produtor do país, o ajuste reflete perspectivas mais otimistas de produtividade no Pará, Maranhão e Piauí.

Em Mato Grosso, o otimismo da revisão baseia-se na rápida evolução dos trabalhos de campo nas últimas semanas. Após um início de semeadura travado em setembro devido à irregularidade das precipitações e à baixa umidade do solo logo após o fim do vazio sanitário, o retorno das chuvas em outubro destravou a operação. Dados recentes apontam que o plantio no estado já atingiu 89% da área estimada de 13,08 milhões de hectares (crescimento de 0,60% sobre o ciclo anterior), superando a média histórica para o período.

Com o desenvolvimento inicial favorecido pelo clima, a StoneX elevou a estimativa de produtividade média em Mato Grosso para 3,74 toneladas por hectare (cerca de 62,3 sacas por hectare), superando as 3,72 toneladas por hectare registradas na temporada passada. No cenário nacional, o levantamento da consultoria AgRural confirma que a semeadura já cobre 53% da área prevista no Brasil — ritmo superior aos 47% registrados na mesma época do ano passado —, o que garante uma janela mais segura para a implantação da segunda safra de milho e algodão em 2027.

Ameaça climática e divergência nas projeções

Apesar do bom arranque nas fazendas, o teto produtivo ainda divide opiniões entre as principais instituições de pesquisa e esbarra no monitoramento meteorológico. A própria StoneX pondera que estados do Centro-Oeste e da fronteira agrícola do Matopiba exigem atenção redobrada neste ciclo devido à atuação do fenômeno El Niño, que costuma intensificar o risco climático, gerando irregularidade de chuvas e ondas de calor durante fases críticas de enchimento de grãos.

Em linha mais conservadora, o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) e a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mantêm cautela em suas projeções. Enquanto a Conab aponta possibilidade de leve retração de 2% na produtividade estadual, o Imea estima um recuo de 5,43% no rendimento das lavouras mato-grossenses, projetando uma colheita estadual em torno de 48,88 milhões de toneladas. Estudos de risco climático chegam a alertar que, caso o El Niño se manifeste com forte intensidade, o estresse hídrico poderia retirar até 9,7 milhões de toneladas do potencial produtivo de Mato Grosso.

Custos elevados esmagam margens no campo

Se do porteira para dentro a agronomia dá sinais positivos neste início de novembro, a gestão financeira da safra 2026/27 impõe forte compressão de rentabilidade ao sojicultor. Levantamentos do Imea em parceria com o Senar-MT revelam que o custo total de produção da soja em Mato Grosso subiu para cerca de R$ 8,17 mil a R$ 8,2 mil por hectare. O encarecimento é puxado principalmente pela valorização dos fertilizantes fosfatados, defensivos, óleo diesel e custos operacionais com maquinário.

Com a receita pressionada e as despesas em alta, o lucro operacional (Lajida) projetado para o produtor mato-grossense sofreu uma retração estimada em 35,05%, caindo para R$ 1.069,47 por hectare. Esse aperto financeiro levou parte dos agricultores a revisar o pacote tecnológico, reduzindo em até 15% a aplicação de adubos fosfatados e 10% nos nitrogenados em nível nacional, segundo análises de mercado.

No front externo, o mercado também acompanha com cautela o ritmo de embarques. Embora o Brasil caminhe para uma oferta recorde de grãos — estimada em 367,1 milhões de toneladas no total pela Conab —, analistas da StoneX alertam para incertezas sobre a sustentação do crescimento da demanda da China pela soja brasileira, visto que o gigante asiático tem ampliado aquisições do grão norte-americano por motivações geopolíticas e comerciais.

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