Tradição da Sexta-feira da Paixão mantém alta procura por peixes em Cuiabá

A tradição de substituir a carne vermelha por peixe na Sexta-feira da Paixão segue forte entre os cuiabanos, mesmo diante de um cenário de preços mais elevados em 2026. Impulsionada pela fé e pelos costumes religiosos, a procura por pescados voltou a movimentar feiras, mercados e supermercados da capital.
Na semana que antecede a data, locais tradicionais como o Mercado do Porto e a região da Feira do Peixe, no bairro Beira Rio, registram intenso fluxo de consumidores em busca das principais espécies consumidas no período, como tambacu, pintado, pacu, cachara e tambatinga.
Levantamentos apontam que o pescado está mais caro em 2026 na comparação com o ano anterior, embora com alta menos acentuada do que a registrada em 2025.
O filé de pintado, por exemplo, é comercializado atualmente por cerca de R$ 60 o quilo — valor estável em relação ao ano passado, mas ainda elevado quando comparado a 2024, quando custava entre R$ 35 e R$ 42. O aumento acumulado no período ultrapassa 40%, refletindo o encarecimento da produção e da logística.
Já espécies mais populares, como o tambacu, apresentam reajuste mais moderado. Em 2025, o produto era vendido, em média, a R$ 30 o quilo. Em 2026, os preços variam entre R$ 32 e R$ 35, uma alta que oscila entre 6% e 15%, dependendo do ponto de venda e do tipo de corte.
Custos de produção pressionam o mercado
O aumento nos preços dos pescados está diretamente ligado a fatores econômicos, como o encarecimento da ração, do transporte e dos combustíveis. A cadeia produtiva também sofre impactos da alta nos insumos agrícolas e da inflação dos alimentos.
Além disso, a restrição à pesca de algumas espécies em Mato Grosso, por meio da legislação conhecida como “Transporte Zero”, continua influenciando o mercado e alterando o perfil de consumo.
Com limitações na oferta de peixes de rio, cresce a procura por espécies de cultivo, como tambacu e tilápia.
A preferência também recai sobre produtos já limpos e cortados, que oferecem praticidade no preparo, principalmente para pratos fritos ou ao molho — os mais consumidos na data.
Supermercados ampliam oferta e apostam em promoções
Nos supermercados de Cuiabá, a variedade de pescados também aumentou em 2026, com destaque para produtos importados e cortes mais nobres.
O bacalhau segue entre os itens mais caros, podendo ultrapassar R$ 300 o quilo. Já opções como tilápia e pirarucu permanecem na faixa entre R$ 60 e R$ 70.
Para estimular as vendas, redes varejistas apostam em promoções e facilidades de pagamento, buscando equilibrar o impacto dos preços elevados.
Programa Peixe Santo amplia acesso ao produto
Para amenizar os efeitos da alta nos preços, a Prefeitura de Cuiabá realiza mais uma edição do programa Peixe Santo, com a comercialização de pescado a preços populares.
Em 2026, a iniciativa disponibiliza toneladas de peixe em pontos estratégicos da capital, principalmente em bairros como CPA, Pedra 90, Tijucal e Morada da Serra, além de regiões centrais.
Os preços são mais acessíveis em comparação ao mercado tradicional. O quilo do peixe inteiro, como tambacu e tambatinga, é vendido entre R$ 25 e R$ 28. Já cortes como filé e peixe tratado variam entre R$ 30 e R$ 40, conforme a espécie.
A proposta é garantir que a população mantenha a tradição religiosa sem comprometer o orçamento familiar.
Tradição resiste mesmo com preços altos
Apesar do impacto no bolso, a tradição segue determinante na decisão de compra. Para muitos consumidores, o consumo de peixe vai além da alimentação e está ligado ao simbolismo religioso da data, que relembra a paixão e morte de Cristo.
A Semana Santa, que marca o fim da Quaresma, permanece como um dos períodos mais importantes do calendário cristão. A abstinência de carne vermelha segue como um gesto de reflexão e devoção.
A professora Daniela Martins, de 32 anos, afirma que mantém o costume desde a infância. Criada em uma família católica, ela relata que a tradição vai além da alimentação.
“Desde criança aprendi isso com meus pais e nunca deixei de seguir. Durante a Quaresma, já evito carne vermelha às segundas, quartas e sextas, e, na Semana Santa, passo a semana inteira sem consumir nenhum tipo de carne. Esse costume é ensinado aqui em casa, do meu filho de 3 anos ao de 18”, contou.
Para ela, o período tem um significado espiritual mais profundo. “Mais do que uma questão alimentar, é um momento de respeito, reflexão e de lembrar o sacrifício de Cristo. É uma tradição que faço questão de manter”, completou.
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