Mega Diário Cuiabá · Quinta-feira, 5 de novembro de 2026
VEJA MAIS

Xuxa: 'Quero ainda usar minha voz para bons propósitos na vida'

capa-xuxa

g1

Quando soube que acompanharíamos o ensaio da capa da Xuxa para a Quem, no Estúdio X, que fica na própria residência da Rainha dos Baixinhos, confesso que senti um misto de ansiedade e excitação que eu já havia aprendido a controlar nos meus mais de 20 anos de carreira como jornalista, muitos deles dedicados ao entretenimento, após entrevistar inúmeras pessoas que admirava, inclusive a própria apresentadora. Mas, naquela terça-feira, especificamente, assumi um lado fã. Reuni todos os seus discos, de uma coleção mais recente de CDs, que ainda guardo com muito cuidado, e parti de São Paulo para o Rio de Janeiro, ainda sem acreditar no que estaria por vir.

Em meio às paredes decoradas com algumas fotos e objetos da sua trajetória de mais de 40 anos de carreira, me dei conta de que estava mesmo na casa da Xuxa quando toquei o clássico par de botas brancas dos anos 80 (com direito a X no salto), garimpado do seu privado acervo, que comporia um dos dez figurinos usados na sessão de fotos. A caminho do estúdio, a memória que me acompanhava era a da menina que fui, como se fosse encontrá-la de chuquinhas e microfone de pompons, assim como ela abria o Xou da Xuxa, nas manhãs de segunda a sábado, de 1986 a 1992. Mas a surpresa foi outra. Me deparei com Maria da Graça Xuxa Meneghel, recém-acordada, em um roupão branco, com os pés descalços e o rosto ainda sem maquiagem, muito calma, cumprimentando com um beijo um a um da equipe presente naquela tarde chuvosa no Rio.

Nos intervalos dos cliques, ela aquecia em seus braços a inseparável yorkshire Doralice, nos mostrava vídeos em seu celular e trocava ideia com a gente sobre assuntos aleatórios, como se fôssemos velhos conhecidos. Em instantes, eu já não a via mais como aquela estrela meio mítica e intocável do meu imaginário. A pessoa presente ali era uma mulher simples e real, assim como eu (dadas as devidas proporções, claro). Nesta hora, senti que não cabia mais mostrar os discos para ela, contar o quanto a admirava ou incomodá-la com as minhas memórias de infância. Eu queria apenas observá-la e conhecê-la verdadeiramente.

Em uma entrevista sincera para a repórter Marina Bonini, que também cresceu sob seu reinado na TV, Xuxa assumiu estar sem dormir por conta da expectativa para estrear no dia 25 de julho a turnê comemorativa O Último Voo da Nave, relembrou os desafios que encontrou ao longo da carreira para se ver como a mulher bem-sucedida, talentosa e poderosa que era, detalhou a transformação radical que o nascimento da sua filha, Sasha Meneghel, trouxe para sua vida, celebrou a liberdade sexual que encontrou nos braços de Junno Andrade aos 49 anos, falou sobre etarismo aos 63 anos e sobre como se imagina em duas décadas.

No dia seguinte ao ensaio, já de volta a São Paulo, ouvi um compilado de músicas dos primeiros álbuns da Xuxa enquanto estava na academia e ali a imagem da Rainha dos Baixinhos voltou. Lembrei da minha versão criança, que, um dia, entrou na caixa da boneca Xuxona e fez um ensaio para a mãe como se fosse a sua maior inspiração e que, de tanto ouvir que "sonhos sempre vêm pra quem sonhar", também acreditou que um dia sairia do interior do Rio Grande do Sul e trabalharia com o que mais ama. E não é que a Xuxa estava certa?

Um dos eventos mais aguardados do ano está se aproximando: O Último Voo da Nave. Era algo que você desejava há muitos anos ou na sua cabeça já havia encerrado de vez esse ciclo? Não! Eu acho que esse ciclo também nunca encerrou na minha cabeça e nem mesmo depois do último voo da nave vai se encerrar. A nave, sim, vai se aposentar para que a imagem que as pessoas têm de mim, com aquela cara e com aquela chuquinha, se encerre. Isso eu já gostaria que estivesse encerrado há muito tempo. Há aproximadamente três anos que eu tenho pensado firmemente em aposentar a minha nave. Que bom que está acontecendo tudo do jeito que eu imaginava para ela. Vamos encerrar o ciclo dela muito bem. Mas encerrar minhas apresentações e minhas aparições nunca pensei, não. Ainda não estou pensando na aposentadoria.

"Há aproximadamente três anos que eu tenho pensado firmemente em aposentar a minha nave"
 

Você está ansiosa com essa turnê? Estou ansiosa, nervosa e não tenho conseguido dormir, mas tudo vai passar.

Você sempre se cuidou muito, com atividades físicas e uma alimentação vegana e saudável, mas vimos que está mais magra. Mudou algo na sua preparação física ou alimentação para essa turnê? Mudou o fato de eu fazer mais ginástica agora. Antes eu fazia ginástica três vezes por semana; agora eu estou fazendo diariamente. Só tenho livre domingo. Tenho feito bastante coisa para não me sentir tão cansada na hora. Mas não mudei nada na minha alimentação.

Em que sentido? Eu recebi fax lá na Argentina (Xuxa comandou El show de Xuxa de 1991 a 1993 na TV Argentina) porque eles não gostavam de ver as crianças com algum tipo de deficiência cantando ao meu lado. Diziam que era hora do almoço e não gostavam disso. Eu me lembro de ter respondido na televisão que eu senti muita vergonha de ter lido isso e de fazer parte do mundo em que as pessoas realmente não olham para as outras com carinho e com respeito. Eu me lembro de que, quando eu quis cantar "eu sou diferente de você, você é diferente de mim", da música Você Vai Gostar de Mim, todo mundo dizia: "Não, você não pode cantar isso porque somos todos iguais". Falei: "Não, nós não somos iguais. E é bacana a gente não ser igual. É legal e normal ser diferente". Então, tem coisas que realmente eu tive que meio que brigar, porque as pessoas não aceitavam e queriam colocar todo mundo numa caixinha. Eu quis abrir as caixinhas e dar espaço para tudo e para todos, mas não fui preparada para isso e nem foi planejado; foi apenas de coração.

Do que você se orgulha de ter conseguido transmitir e ensinar para essa geração que foi criada vendo os seus programas? É muito difícil generalizar e dizer: "Ah, eu gostei de ter transmitido isso". Acho que as minhas músicas transmitiram muita coisa bacana. Como foram quatro décadas, quatro gerações, é muito difícil te responder isso. Mas eu acredito que uma das coisas mais importantes que eu devo ter feito, pelo menos, eu vejo e ouço muita gente falando, foi o de fazer as pessoas acreditarem nos seus sonhos. Eu vim do interior e fui criada no subúrbio do Rio, mas consegui conquistar tudo o que eu conquistei porque eu nunca desisti do meu sonho, que era muito simples: dar o melhor para a minha mãe. Corri atrás disso e não desisti de jeito nenhum. Depois, outros sonhos vieram. Hoje eu tenho um sonho de ver minha filha muito feliz e de ver os meus netos... Queria muito deixar mais do que eu já consegui deixar para as pessoas.

"Tem tanta coisa que eu ainda quero fazer antes de ir embora desse mundo, sabe? Então, acho que a coisa mais bonita talvez ainda esteja para acontecer"

O que deseja inspirar daqui adiante para o seu público? Hoje sou vegana, levanto a bandeira LGBT+, quero dar voz às crianças que foram ou são abusadas como eu fui... Tem tanta coisa que eu ainda quero fazer antes de ir embora desse mundo, sabe? Então, acho que a coisa mais bonita talvez ainda esteja para acontecer. As coisas bonitas que aconteceram, eu já vejo fruto, fico muito feliz e muito lisonjeada por isso. Tem tanta coisa para eu ainda passar, já que eles me dão voz e tenho credibilidade. Fico tão feliz quando eu vejo alguém tendo respeito pela minha história, pelo que eu vivi, vivo e vou viver. Quero ainda usar essa voz para bons propósitos na vida. Por incrível que possa parecer para as pessoas, tenho muita dívida. Tudo que eu tenho, eu realmente devo a Deus ou ao "cara lá de cima", e ao meu público, que nasceu e cresceu comigo e tem muito carinho e respeito por mim.

Por muitos anos você esteve muito protegida; depois você mesma foi tomando as rédeas da sua carreira, vida e saindo dessa redoma de vidro que te colocavam. Como foi ver o mundo, as pessoas e até você mesma por suas próprias escolhas? Isso aconteceu depois que a Sasha nasceu. Deu uma virada de chave. Eu não queria que ela crescesse pensando que a mãe dela era aquela pessoa que era só mandada por alguém. Tipo, "senta aí", "levanta", "agora fala assim", "agora veste a roupa assim", "agora come isso", "agora não fala isso". Eu realmente quis ser uma pessoa melhor e quis andar com minhas próprias pernas, coisa que eu já devia ter feito há muito tempo... Sempre quando eu começava a trabalhar com as pessoas, elas me tratavam muito bem. Depois elas iam tomando conta. Elas não são de cara aqueles monstros que viraram. Elas vão virando aos poucos.

Algo recorrente, então... Acho que é um problema meu... Eu meio que transformo essas pessoas nesses monstros e elas tomam conta da minha vida. Só que chegou um momento, quando eu resolvi ser mãe, em que eu falei: "Não quero mais isso para mim". E aí, eu passei a me olhar com mais carinho. Mas o que eu queria, na realidade, era que a minha filha tivesse orgulho de mim. Do jeito em que eu estava vendo e fazendo, não tinha como nem eu ter orgulho de mim, quanto mais a minha filha.

"Eu queria que a minha filha tivesse orgulho de mim. Do jeito em que eu estava vendo e fazendo, não tinha como nem eu ter orgulho de mim, quanto mais a minha filha"
 

Em 2023, tivemos a oportunidade de conhecer sua trajetória por outros ângulos por meio do Xuxa, o Documentário. Ali você tocou em histórias doloridas, reencontrou pessoas que já não fazem mais parte da sua vida... Saiu, de alguma forma, diferente deste projeto como pessoa? Eu fiquei um pouco assustada porque eu tinha meio que me esquecido de tudo que eu tinha vivido. Quando eu comecei a ver o documentário, vi as pessoas comentando, falando de tudo que eu tinha vivido... Comecei a pensar: "Nossa, realmente eu vivi tudo isso, né?". Eu meio que apaguei um pouco a minha história, sabe? Foi muito legal reviver a minha história. Quando eu tiver meus netos, vou querer mostrar para eles quem foi a avó deles. Eu queria guardar realmente aquilo, porque talvez, se eu contasse, eu não ia contar com tantos detalhes e com tanta beleza como foi feito pelo documentário.

Fez as pazes com pessoas ou situações que não estavam resolvidas? Não. E nem quero fazer as pazes com nada, nem com ninguém. Para mim, está ótimo assim. Eu rezo todos os dias para Deus: "Afaste-me de todo mal. Amém". E ele tem feito isso para mim. Seria muita burrice eu voltar a ter certas situações de pessoas mal resolvidas perto de mim.

Dizem que o sucesso é solitário e o topo, ainda mais. Sua trajetória foi solitária? Todo dia as crianças diziam: "Eu te amo". Elas eram muito ligadas a mim e me apertavam o tempo todo, mas eu voltava para casa com as mãos abanando, sem namorado, sem criança e apenas com meus bichos. Foi bastante solitário. Eu convivia com as pessoas que trabalhavam comigo, e elas acabaram virando minha família. A Maria, que era minha governanta, eu posso dizer com todas as letras que foi minha segunda mãe. Ela não foi uma pessoa que trabalhou para mim, mas, sim, minha segunda mãe. Eu tinha a certeza absoluta de que, se eu não tivesse dinheiro igual, ela ficaria do meu lado. Então, eu acabei descobrindo uma outra família no meu trabalho. Mas, mesmo com a Maria e todo mundo perto de mim, eu dizia que sentia falta de ter alguém para chamar de "amor", "de tesão", "de fofo", "de gostoso", de "meu namorado". Também queria, principalmente, ser chamada de "mãe". Isso foi uma coisa que demorou. Eu queria muito ser mãe porque eu sentia muita vontade de ter uma pessoinha que tivesse saído de dentro de mim e que tivesse perto de mim para o resto da vida. Isso, sim, eu sentia falta.

"Todo dia as crianças diziam: 'Eu te amo'. Elas eram muito ligadas a mim e me apertavam o tempo todo, mas eu voltava para casa com as mãos abanando, sem namorado, sem criança e apenas com meus bichos. Foi bastante solitário"
 

Falando de maternidade, a Sasha foi uma menina criada com muitos privilégios, mas nunca deixou de olhar para o outro que não estava na mesma bolha e que construiu sua própria trajetória profissional. Como você fez para criá-la de uma forma que ela não se limitasse a ser apenas uma herdeira? Eu já falei anteriormente e repito: a Sasha veio pronta! Ela escolheu ser minha filha lá em cima e eu tenho certeza de que ela já veio sabendo de tudo que ela ia passar, inclusive de algumas coisas nada agradáveis e muitas coisas agradáveis. Ela já veio sabendo que ia ter muito carinho e respeito das pessoas, mas também muita cobrança. Ela é uma menina muito inteligente. Falo para ela que ela parece uma alma velha, que já viveu bastante. Sabe falar, pensa certinho, sabe o que quer... Desde muito pequena, quando eu queria botar certas roupas nela, ela já dizia: "Não". Então, ela já sabia o que ela queria até vestir naquela época. Nunca ninguém mandou nela. Ela sabe muito bem o que é, e eu acho que isso é uma coisa muito forte da personalidade dela. E essa coisa que as pessoas falam: "Ah, ela é herdeira, não precisava trabalhar". Graças a Deus, ela não vê a vida dela por esse lado, não ouve essas pessoas e está brilhantemente abrindo os caminhos para ela, escrevendo a história dela, e eu acho que ela tem muita coisa para fazer, viver e mostrar para as pessoas. A Sasha vai ser uma história à parte no livro da minha vida, porque ela é uma menina muito especial e o mundo ainda vai descobrir isso. Já descobriu um pouquinho, mas vai descobrir muito mais.

A Sasha tem brilhado como estilista com a sua marca de roupas, a Mondepars. A sua mãe também costurava roupas para você no começo da carreira. Você vê muito da Aldinha na Sasha? Demais, demais, demais, demais. Acredito eu que ela tem mais DNA da minha mãe do que eu.

Uma frase que ficou marcada por ter sido dita por você é que "no Brasil, não há homem para mim". Você sempre foi uma mulher muito poderosa, linda, bem-sucedida, realizada, rica. Isso assustava os homens brasileiros? Então, na realidade, essa frase foi o Beco (Ayrton Senna) que falou. Ele falou assim: "Olha, no Brasil, não tem homem para você. Você fica comigo ou não vai ficar com mais ninguém." E eu até brinquei com ele, falei: "Isso é o quê? É uma praga ou é um pedido de casamento?" E eu acabei repetindo essa frase quando a gente se separou para lembrar o que ele tinha dito. Acabou virando uma frase minha, mas que não foi dita por mim, mas por ele. Mas acho que eu assustava os homens, sim. Alguns já me falaram que eu assustava por causa do meu jeito. Eu já chegava falando o que eu queria e o que eu não queria. Continuo sendo assim.

Você chegou a pensar em algum momento da sua vida que seria impossível para você ter um companheiro? Claro, algumas vezes.

Você começou a namorar o Junno Andrade, seu relacionamento mais duradouro, em uma fase mais madura da sua vida. Qual o segredo deste relacionamento e o que é indispensável para que a relação dê certo? Eu reencontrei o Ju no dia 12/12/2012. Já tem 13 anos que nós estamos juntos. Eu nunca tive um relacionamento tão duradouro e, como já disse antes, quero morrer ao lado dele. O que eu acho indispensável, pelo menos no meu relacionamento com ele, é a cumplicidade. A gente é cúmplice em tudo que a gente fala e faz. Também sempre respeitamos muito o espaço, a vontade e o desejo do outro. Tudo isso, obviamente, é regado com muito amor, muito sexo e muito tesão pelo outro. A gente se completa bastante. Ele é uma pessoa que dá um equilíbrio na minha vida que eu nunca tive.

"Eu e o Junno somos cúmplice sem tudo que a gente fala e faz. Também sempre respeitamos muito o espaço, a vontade e o desejo do outro. Tudo isso, obviamente, é regado com muito amor, muito sexo e muito tesão pelo outro"
 

Você disse que descobriu a liberdade sexual após os 50. O que é essa liberdade sexual exatamente? É você poder fazer o que quiser com o amor da sua vida. Quando você tem vontade de fazer alguma coisa, você divide com essa pessoa e faz. Eu descobri a liberdade de ser você do jeito que você quer ser. Pode parecer infantil demais para algumas pessoas, pode parecer abusado demais para outras ou pode parecer até vulgar para algumas pessoas, mas não importa. O que eu quero fazer, não importa o tema ou o jeito que eu vou estar, se eu estou com ele e ele está comigo, está tudo certo. Em quatro paredes, eu acho que vale tudo.

Como foi construir uma relação amorosa enquanto descobria uma nova fase da sua vida com a menopausa, momento que causa alterações na libido, secura e mudanças de humor em algumas mulheres? Então, eu não tive nada disso daí. Nada. Passou tão rápido e foi tão leve para mim. Eu vejo as mulheres falando que elas tiveram tudo isso, mas eu não tive nada disso. Eu reencontrei o Ju com 49 anos, ou seja, com 50 anos. Eu estava muito bem. Não tive mudança de humor. Se tive, eu não me lembro. Não tive falta de libido. Passei de boa. Não senti nenhum impacto! Fiz reposição hormonal. Acho que já deve ter uns seis ou sete anos. Passo um creminho no interior das coxas e só.

"A minha vida sexual mudou muito a partir dos 50 anos, ou seja, eu tenho muita coisa ainda para viver, para fazer, para sonhar, para ver, para conhecer, para experimentar e para aprender"
 

Você já falou em algumas entrevistas sobre a pressão que sente dos outros para não envelhecer. Essa pressão já veio de você mesma também? Claro que sim. Óbvio! Cada vez que eu me olho no espelho, até pelo fato de ter trabalhado com a minha imagem desde os meus 16 anos de idade. É muito normal isso.

Como você lida com o passar dos anos? Alguns dias, mais ou menos; outros dias, muito bem. Depende. Não é muito fácil. Eu acho que a cobrança das pessoas é muito grande, mas eu gostaria de falar que elas estão certas; eu realmente estou velha. Sobre essa cobrança das pessoas que não querem me ver envelhecer, elas também estão certas; eu também não gostaria de me ver envelhecer. Mas elas têm que saber que isso é o ciclo normal da vida. Eu envelheço e elas estão envelhecendo comigo.

Você já falou algumas vezes que, por você, já seria avó. É algo que cobra da Sasha e do João Lucas? Claro. Falo quase diariamente com a Sasha e com o João sobre isso. Sem impor data nem nada, mas apenas digo que a minha vontade de ser avó é muito grande. Acho que vou ser aquela avó babona que vai fazer tudo por ele, por ela, por eles ou por elas.

Falando em bebês, você fez um trabalho muito bem-sucedido e premiado com o Xuxa Só para Baixinhos, que era um trabalho mais pensado para a primeira infância. O que te inspirou no desenvolvimento desse projeto? Antes da Sasha nascer, eu buscava muitos vídeos para ela poder ver. Vi que quase todos eram americanos, japoneses ou australianos. Não tinha nada brasileiro. E aí eu senti muita vontade de fazer isso. Aprendi muito com as coisas que as pessoas fizeram lá fora, como o Vila Sésamo e o Eagles, que era australiano. Descobri que uma das fases mais difíceis para você trabalhar era a das crianças de 1 a 7 anos. Um bebezinho não pode ter muita informação. Uma criança, de 1 até 3 anos, tem aquela coisa de preferências de sons e, no máximo, pode receber três informações. Tipo, a minha roupa, o objeto que eu tenho na mão e as letras das músicas. Dos 3 aos 6 anos já começa a ter uma mudança, dependendo do lugar em que ela vive. Nessa idade, os pais, a sociedade e a escola impõem certas coisas, como: "menino gosta de bola ou quer ser um super-herói", "menina gosta de boneca ou quer ser princesa", "menina gosta de rosa e menino gosta de azul". Então é muito difícil falar com essa faixa etária. Foi uma loucura e um aprendizado. Foi tipo: "Nossa, trabalhei a minha vida toda com criança e não sei nada sobre criança". Então, foi muito importante ganhar dois Grammys (o projeto recebeu 6 indicações ao Grammy Latino na categoria de Melhor Álbum Infantil, saindo vitorioso em duas ocasiões) com o XSPB. Foi incrivelmente lindo.

Posso dizer que é o trabalho pelo qual você mais se orgulha na sua carreira? Eu me orgulho de ter conseguido. Porque todo mundo dizia que eu não ia mais fazer nada para criança, que era para eu me aposentar, mas eu ainda ganhei dois Grammys e tenho a possibilidade de continuar fazendo, se eu quiser. Público para isso tem. Quando eu faço esse tipo de trabalho, é com muito carinho, respeito e cuidado, pensando em todas essas coisas.

 
 
 
 
 
 

Relacionadas