Mega Diário Cuiabá · Quinta-feira, 5 de novembro de 2026
14 ANOS DE ATRASO

14 anos depois, VLT/BRT segue inacabado e marca rotina de obras e transtornos em Cuiabá e VG

OBRAS BRT
Especial Mega Diário   Escavações na Prainha em 2012 - início das obras do VLT

Quatorze anos depois do início das obras para a Copa do Mundo de 2014, Cuiabá e Várzea Grande ainda convivem com os impactos de um projeto marcado por atrasos, mudanças de modal e intervenções constantes no trânsito. Iniciadas em 2012, as obras que começaram como promessa de modernização da mobilidade urbana seguem em execução até hoje. Enquanto o governo afirma que pretende entregar o BRT até o fim do ano, moradores e comerciantes cobram uma solução definitiva para o transporte público na região metropolitana.

O que deveria ser o principal legado da Copa do Mundo para a mobilidade urbana da região metropolitana atravessou três edições do Mundial, três governos estaduais, uma mudança de modal, disputas políticas, ações judiciais e um contrato rompido, sem que o sistema de transporte prometido fosse entregue à população. Enquanto isso, comerciantes contabilizam prejuízos, trabalhadores passam horas presos no trânsito e moradores convivem diariamente com uma obra que parece nunca chegar ao fim.

Avenida da Prainha  

A mudança do VLT para o BRT foi oficializada em dezembro de 2020, durante o governo Mauro Mendes (União Brasil), sob a justificativa de que estudos técnicos apontavam inviabilidade econômica e operacional para a conclusão do sistema sobre trilhos. A decisão encerrou oficialmente o projeto iniciado em 2012 e abriu caminho para a implantação de um novo modelo de transporte coletivo na região metropolitana.

A decisão foi marcada por uma disputa política e judicial entre o Governo do Estado e a Prefeitura de Cuiabá, na época administrada por Emanuel Pinheiro (MDB), que defendia a conclusão do VLT e chegou a recorrer à Justiça para impedir a substituição do modal. O embate extrapolou a discussão técnica e prolongou a indefinição sobre o futuro da obra.

Na prática, o impasse político se soma aos atrasos acumulados desde 2012. O sistema sobre trilhos permaneceu inacabado, os trilhos começaram a ser retirados, vagões vendidos para Bahia e uma nova frente de obras passou a ocupar os mesmos corredores viários que, anos antes, haviam sido preparados para receber o VLT.

Após sucessivos atrasos, em fevereiro de 2025, o Governo de Mato Grosso anunciou a rescisão do contrato com o Consórcio Construtor BRT. Segundo a Secretaria de Estado de Infraestrutura e Logística (Sinfra-MT), a medida foi tomada após o reiterado descumprimento do cronograma e de obrigações contratuais. De acordo com o Estado, mais de dois anos após a emissão da ordem de serviço, apenas cerca de 18% da obra havia sido executada, apesar dos pagamentos estarem em dia e de dezenas de notificações encaminhadas ao consórcio.

Desde então, o Governo optou por dividir a conclusão da obra em novos contratos. As etapas remanescentes, como a construção das estações, terminais e do Centro de Controle Operacional (CCO), passaram a ser licitadas separadamente. Embora as obras tenham sido retomadas em diferentes trechos, ainda não há uma data definitiva para a entrega integral do sistema.

Uma promessa que não chegou ao destino

 

As intervenções começaram em agosto de 2012, quando máquinas passaram a ocupar corredores estratégicos de Cuiabá e Várzea Grande, uma das cidades-sede da Copa do Mundo de 2014, que recebeu visitantes de diversos países e esteve no centro da vitrine internacional do futebol. O projeto prometia modernizar o transporte público e ser entregue justamente antes do Mundial, como principal legado da mobilidade urbana para a população. A promessa não se cumpriu. O sistema nunca entrou em operação.

Desde então a população e os comerciantes vêm sofrendo com as interrupções do trânsito em diferentes pontos de Cuiabá e Várzea Grande. Na Avenida Miguel Sutil, na região da Prainha, no Centro e nos corredores que ligam a capital a Várzea Grande, motoristas enfrentam diariamente lentidão e mudanças constantes no fluxo de trânsito.

A sensação de “obra permanente” se consolidou ao longo dos anos. Trechos são abertos, fechados, refeitos e novamente alterados, sem que a população perceba um fim definitivo.

Impactos no comércio

No Centro de Cuiabá, comerciantes relatam que os impactos das obras vão além do trânsito. Um comerciante da região central, que preferiu não se identificar, afirma que o impacto das obras afastou clientes e reduziu o movimento no comércio.

 

“O cliente hoje pensa duas vezes antes de vir ao Centro. A primeira coisa que ele pensa é no transtorno. Só de imaginar, ele desiste. A gente perde o consumidor todos os dias”, diz.

Em diferentes pontos da região central de Cuiabá, como nas avenidas Prainha e Miguel Sutil, por exemplo, moradores e comerciantes relatam um cenário recorrente ao longo dos anos de intervenções: trechos que são abertos, refeitos e novamente alterados em um curto intervalo de tempo, muitas vezes sem explicações detalhadas sobre os motivos das novas intervenções. O padrão, segundo relatos, se repete em diferentes fases das obras do BRT, alimentando a percepção de falta de planejamento e de continuidade na execução dos serviços.

"É o mesmo serviço sendo feito várias vezes. A gente vê abrir, fechar, quebrar e refazer tudo de novo. Já perdi a conta de quantas vezes mudaram o trânsito aqui na Prainha. Um dia está de um jeito, no outro já mudaram tudo outra vez. A impressão é que fazem a obra, depois quebram e recomeçam. Enquanto isso, o comércio perde clientes e ninguém explica por que o mesmo trecho precisa ser mexido tantas vezes. No fim das contas, é dinheiro público indo embora e a população pagando a conta", criticou.

 

 Além dos transtornos provocados pelas intervenções, comerciantes também reclamam da falta de comunicação prévia sobre interdições e mudanças no trânsito. Segundo eles, em muitos casos, motoristas e moradores só descobrem que uma via foi bloqueada ao chegarem ao local, o que provoca congestionamentos e dificulta o planejamento dos deslocamentos diários. Morador do bairro Cidade Alta em Cuiabá, Giovani Alves, trabalha como motorista de aplicativo, ele contou que circula diariamente por ambas cidades e resume a frustração acumulada ao longo dos anos de intervenções.

"Gastaram para construir, depois gastaram para desfazer e agora fazem tudo de novo. E ninguém sabe quando isso vai terminar. O cidadão acorda e descobre que a rua por onde passa todos os dias está fechada. Não existe uma comunicação eficiente com a população, ninguém avisa com antecedência, não há orientação suficiente sobre os desvios. Colocar um aviso no site do Governo não resolve. Quem trabalha, quem tem comércio ou precisa atravessar a cidade não fica consultando o site o dia inteiro para saber se uma avenida será interditada. A população é pega de surpresa e precisa se virar sozinha", destacou.

Entre Cuiabá e Várzea Grande: o trânsito como rotina

Para quem depende diariamente do deslocamento entre Cuiabá e Várzea Grande, o cenário tornou-se parte da rotina. Maria do Carmo, moradora do bairro Parque do Lago, em Várzea Grande, relata que o tempo de deslocamento aumentou drasticamente desde o início das obras em 2012.

“Eu demoro mais tempo no trânsito do que no meu trabalho. Antes eu gastava duas horas. Tem dias que levo quatro horas para chegar em casa”, relata.

“Trocaram o VLT pelo BRT, mas o problema continua. A gente segue preso no trânsito do mesmo jeito.”

Opiniões divididas sobre o avanço das obras

Enquanto parte da população demonstra cansaço e descrença, há quem veja evolução no ritmo atual das intervenções.

André Costa, morador do bairro Pedra 90, acredita que desta vez o projeto pode avançar.

“Agora está num ritmo bom. Teve paralisações, mas retomou. É igual à reforma de casa: dá trabalho, mas depois melhora”, afirma.

Na outra ponta, o comerciante José Rodrigues demonstra insatisfação com o cenário atual.

“Está devagar demais. Não tem nem como andar aqui no Centro. O trânsito só piora”, diz.

Uma geração inteira atravessada pela mesma obra

O impacto do projeto não se limita ao presente. Ele atravessa gerações. Vinícius Freitas tinha 14 anos quando as obras começaram, em 2012. Hoje, aos 28, formado em telecomunicações, casado e pai de dois filhos, ele ainda convive com os mesmos transtornos no dia a dia.

“Se alguém me dissesse naquela época que eu chegaria aos 28 anos e a obra ainda estaria assim, eu diria que era piada. Lembro perfeitamente do barulho que faziam na época. A promessa era de que Cuiabá e Várzea Grande virariam primeiro mundo, que o VLT seria o grande legado da Copa de 2014 e que a nossa mobilidade ia mudar completamente. O que a gente viu na prática foi a cidade virar um canteiro de obras infinito, poeira, trânsito caótico e aquele sentimento de que tudo ia valer a pena no final. Eu era moleque, andava de ônibus ou a pé e ficava imaginando o quanto a minha vida ia facilitar se eu pudesse usar esse meio de transporte moderno para estudar e trabalhar. Era o meu sonho na época”, lembra.

"Se alguém me dissesse naquela época que eu passaria por toda a minha juventude, me tornaria adulto, casaria, começaria a trabalhar e chegaria aos 28 anos com a cidade ainda remendada e sem o sistema funcionar, eu diria que era piada", completa. 

Mais do que acompanhar uma obra, Vinícius afirma que teve a própria vida marcada por ela. O que começou quando ele ainda era adolescente continua presente na rotina da cidade mais de uma década depois, agora sob outro projeto, mas com os mesmos impactos no trânsito e na mobilidade.

"É uma mistura de vergonha e muita indignação. Olhar para os mesmos canteiros centrais, para os mesmos desvios e problemas de infraestrutura que eu via quando usava uniforme de escola, só que agora de dentro do carro, parado no congestionamento, é revoltante. É o retrato de que o tempo passa, a gente evolui, mas a gestão pública continua atolada no mesmo lugar."

"Ninguém mais aguenta discurso político sobre isso. A confiança foi destruída a cada prazo que não foi cumprido, a cada escândalo e a cada nova promessa de que 'agora vai'. Hoje, quando anunciam algum avanço, o cuiabano não comemora, ele ironiza, porque aprendeu a só acreditar vendo — e olhe lá."

Ao passar diariamente pelos trechos em obras, Vinícius diz que o sentimento predominante deixou de ser esperança e passou a ser de frustração.

"Não dá mais para ter esperança olhando para aquilo. Toda vez que fico preso no trânsito só consigo pensar no tempo perdido e no dinheiro público desperdiçado. A rotina de milhares de pessoas poderia ser muito mais leve se tivessem entregue o que foi prometido lá atrás, em vez de deixar a população refém desse caos que parece não ter fim."

Embora o Governo do Estado afirme que as obras do BRT seguem em andamento, ainda não há um cronograma definitivo para a entrega completa do sistema. Após romper o contrato com o antigo consórcio, a Sinfra-MT passou a licitar separadamente os serviços remanescentes, incluindo a construção das estações, terminais e do Centro de Controle Operacional (CCO). Os novos contratos foram homologados apenas neste ano, evidenciando que, passados 14 anos desde o início das intervenções, etapas consideradas essenciais para o funcionamento do BRT ainda estão em fase de contratação e execução.

   

A reportagem procurou a Secretaria de Estado de Infraestrutura e Logística (Sinfra-MT) e a Câmara de Dirigentes Lojistas de Cuiabá (CDL), mas não recebeu retorno de nenhuma das instituições até o fechamento desta edição. O espaço segue aberto.

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