Chocoey quer levar produção do campo à barra e ampliar presença do chocolate mato-grossense
Nascida em Tangará da Serra, Chocoey aposta no modelo “bean to bar”, planta cacau e busca ampliar presença no Brasil e no mercado internacional

O chocolate que hoje leva sabores de Mato Grosso para diferentes lugares do país começou com uma mulher batendo de porta em porta para vender doces. Em Tangará da Serra, Audiley de Freitas Sancore transformou uma renda extra feita nos intervalos do trabalho em um negócio que já ultrapassa duas décadas e agora se prepara para dar mais um passo: plantar o próprio cacau e, no futuro, usar o fruto cultivado pela empresa na fabricação dos chocolates.
A história começou longe das grandes máquinas e das prateleiras de supermercados. Audiley fazia doces de leite em pó nos intervalos do trabalho e à noite. O objetivo inicial era complementar a renda.
O chocolate entrou nessa história quase por acaso. Durante a participação em um reality realizado em um shopping de Tangará da Serra. Depois, a participação em um programa de TV na cidade, onde Audiley levou alguns dos doces que produzia para presentear o apresentador. O produto chamou atenção e, como era época de Páscoa, veio a pergunta que mudaria o rumo do negócio. 'Você faz ovos Páscoa'? Foi assim que tudo começou.
Ela ainda não tinha experiência na produção de chocolates. Para aprender, buscou conhecimento onde era possível encontrar: nas bancas de revista.
“Eu levei os docinhos para dar de presente para o apresentador. Foi um sucesso. Como era época de Páscoa, perguntaram se eu fazia ovos de Páscoa. Eu falei que fazia.”
“Na época não tinha essa tecnologia que tem hoje, internet, essas coisas. Eu fui nas bancas, comprei revistas e comecei a desenvolver os chocolates. Comecei a comprar barras, produtos para fazer confeitaria e acabei me endividando.”
Com o aumento das encomendas, principalmente de produtos à base de chocolate, Audiley deixou os bolos e outros quitutes de lado para se dedicar às trufas, aos bombons recheados e às pequenas barras. Os produtos passaram a ocupar uma geladeira instalada no comércio do marido, onde eram separados por sabores.O empreendedorismo nasceu da necessidade, mas cresceu à medida que ela percebia a aceitação dos clientes. Com a ajuda do marido, Audiley formalizou o negócio em 2011 e abriu a primeira loja, que funcionou por cinco anos ao lado do comércio do marido. Em meio à trajetória de crescimento, porém, problemas de saúde fizeram com que ela encerrasse as atividades no local.
A produção não parou. Audiley voltou a comercializar os chocolates no estabelecimento da família e instalou a fábrica em uma sala nos fundos. Mesmo diante das dificuldades financeiras e de saúde, ela manteve a produção e seguiu à frente do negócio.
A fé, o apoio da família e a vontade de construir um futuro diferente foram importantes para que ela continuasse. Hoje, o marido e a filha também participam da rotina da empresa, que segue ampliando suas atividades.
Do chocolate ao próprio cacau
Mais de 20 anos depois daquele primeiro carrinho, a Chocoey entrou em uma fase diferente. A empresa passou a trabalhar com o conceito Bean to Bar, que acompanha etapas da produção do chocolate desde a amêndoa do cacau até a barra. O processo envolve seleção das amêndoas, torra, descasque, produção dos nibs, moagem, formulação e temperagem.
Para isso, a empresária foi conhecer de perto uma plantação de cacau em Rondônia, onde passou e comprar a amêndoa.
"Mato Grosso ainda tá começando, com a produção do cacau, em alguns lugares já está tendo até amêndoas em quantidade maior, até igual a outros lugares do país, como Santo Antônio do Leverger, mas ainda não é suficiente para a demanda. Então nós fomos até Rondônia, conhecemos o plantio lá", conta.
"De lá também trouxemos as amêndoas selecionadas para a produção de um chocolate fino. Aqui eu faço todo o processo de torra, descasque. Depois iniciamos a produção do chocolate com melangeira, que é a máquina que produz o nosso próprio chocolate", completa.
“Hoje a Chocoey completa mais de 20 anos de história. Começou com um carrinho, com determinação, e se transformou em uma marca que valoriza a gastronomia, a cultura e os ingredientes do nosso Mato Grosso.”O lançamento da marca foi durante o Festival do Chocolate, em Cuiabá no final de agosto.
Agora, o espaço onde funcionou a antiga loja está sendo preparado para receber uma fábrica e um showroom. A estrutura deve ser aberta no início de outubro, em Tangará da Serra.
Do campo às gôndolas
Agora, a empresa quer aproximar ainda mais a produção do campo. A Chocoey já iniciou o plantio de cacau e pretende chegar a aproximadamente mil pés.
A plantação ainda está em fase inicial. Segundo Audiley, parte das mudas será enxertada para reduzir o tempo até a primeira produção. A expectativa é que os pés enxertados comecem a produzir em aproximadamente dois anos. Sem o enxerto, a primeira frutificação pode levar de quatro a cinco anos.
O cultivo também exige cuidados, principalmente durante os períodos de estiagem.
A ideia é que, conforme a plantação avance, o cacau cultivado pela própria empresa possa entrar na fabricação dos chocolates.
“Para nós, principalmente para mim, que estou fabricando, é perfeito, porque não precisa comprar barras industrializadas para fabricar. Nós fabricamos o próprio chocolate.”
Mato Grosso dentro do chocolate
O projeto do cacau próprio se soma a uma estratégia que já vem sendo construída pela empresa: levar para o chocolate ingredientes e referências do território onde a marca nasceu.
O cumbaru é um dos exemplos dessa proposta. Para Audiley, a utilização de ingredientes regionais ajuda a contar uma história sobre Mato Grosso por meio dos produtos.
“Talvez o que mais me emociona seja ver o fruto do nosso Pantanal ajudando a levar nossa história para lugares que eu jamais imaginei.”
De Tangará para outras regiões
A Chocoey também deixou de atuar apenas na venda direta e passou a participar de feiras, festivais, programas de inovação e rodadas de negócios.
Entre os eventos citados estão Guenfarm, ExpoAgro e Festival do Chocolate. A participação nesses espaços ampliou o contato da marca com consumidores, empresários e potenciais compradores de diferentes regiões.
A empresa agora trabalha com novos planos de expansão, entre eles a abertura de franquias e a busca por parceiros e mercados, inclusive fora do Brasil.
A história, porém, continua ligada ao ponto de partida. O negócio que começou com doces feitos nos intervalos do trabalho e ganhou as ruas com um carrinho de chocolates agora tenta fechar um ciclo: produzir o próprio cacau e levar esse fruto até a barra.
“Eu sou a prova de que, quando uma mulher decide seguir em frente, ela pode levar muito mais do que um negócio. Pode levar uma história inteira de superação e, quem sabe, inspirar outras pessoas a acreditarem nos próprios sonhos”, afirmou.
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