Desafios e perspectivas do mercado de milho e soja são temas de debate

Os desafios e as perspectivas para os mercados de milho e soja foram destaques no segundo webinar do ano promovido pelo Sistema Faesc/Senar em parceria com a consultoria Safras & Mercado, realizado nesta terça-feira (28). O encontro, que integra uma série de eventos voltados à qualificação do setor agropecuário em 2026, teve como eixo central a análise do “Cenário de oferta e demanda global: perspectivas de mercado de milho e soja”.
Conduzida pelo consultor-chefe da Safras & Mercado e referência nacional em grãos, Paulo Roberto Molinari, a palestra abordou uma ampla gama de variáveis, que vai do clima à geopolítica, para traçar um panorama do setor.
Segundo Molinari, o plantio da safra 2026/27 nos Estados Unidos avança em ritmo acelerado, impulsionado por condições climáticas favoráveis. Dados recentes indicam que o milho já alcança cerca de um quarto da área estimada, enquanto a soja supera os 20%, desempenho acima da média histórica e considerado um dos mais precoces já registrados para a oleaginosa.
Segundo análises de mercado, o clima favorável norte-americano tem permitido rápida evolução dos trabalhos de campo, cenário que costuma estar associado a boas produtividades.
No plano macroeconômico, o analista destacou a instabilidade cambial global, influenciada sobretudo pela política monetária dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, a valorização do Yuan sustenta o poder de compra chinês, fator relevante para manter sua capacidade de importação de produtos como carnes, grãos e minério, o que acaba contribuindo para reduzir grandes oscilações no real.
Apesar desse cenário externo relativamente equilibrado, Molinari apontou fragilidades estruturais no Brasil. O país volta a conviver com déficits recorrentes em transações correntes, ainda que considerados administráveis. O saldo de março, aponta que esse déficit chegou a cerca de US$ 6 bilhões, o que acende um sinal de alerta e gera expectativa sobre os dados de abril, para verificar se houve recuperação ou não.
Segundo Molinari, a Selic mantém elevada a diferença entre a taxa de juros do Brasil e a do exterior, em torno de 4 a 5 pontos percentuais. Esse diferencial favorece a entrada de capital no país, tanto de perfil mais estável quanto especulativo, que passa a circular na economia brasileira. Em alguns momentos, porém, há saída líquida de recursos, como ocorreu em março, quando o volume de capital que deixou o país superou o que entrou.
SAFRINHA DE MILHO NO BRASIL
No Brasil, as preocupações com a safrinha de milho persistem, mas a recomendação é de cautela. Regiões que vinham enfrentando estresse hídrico, como o Norte do Paraná, registraram melhora após chuvas recentes. Também houve precipitações no Oeste paulista e em Mato Grosso do Sul, contribuindo para a recuperação das lavouras.
Apesar disso, áreas pontuais, especialmente em partes de Goiás, ainda demandam maior regularidade de chuvas. Especialistas destacam, porém, que eventuais perdas localizadas não têm força para alterar o equilíbrio global de oferta e demanda, embora possam gerar movimentos especulativos no mercado.
De acordo com Molinari, a previsão climática indica novas precipitações em importantes regiões produtoras, como Paraná, Mato Grosso, São Paulo e Triângulo Mineiro, o que deve sustentar o desenvolvimento das lavouras. Em áreas mais ao Norte de Goiás e Minas Gerais, o impacto climático tende a ser menor devido ao uso de irrigação.
Diante desse contexto, o mercado não projeta, até o momento, uma quebra relevante na safrinha, desde que as condições climáticas previstas se confirmem. Para os próximos meses, os modelos indicam chuvas dentro da normalidade, embora o período naturalmente apresente baixos volumes, exigindo monitoramento constante.
No horizonte mais longo, começam a surgir sinais da influência do fenômeno El Niño. Há indicativos iniciais de seca na Venezuela, que pode se intensificar entre julho e outubro e, dependendo de sua intensidade, avançar para regiões do Norte do Brasil e até o Centro Oeste.
MERCADO DA SOJA
Durante palestra, o especialista destacou que, no caso da soja, o clima na América do Sul e as compras chinesas nos Estados Unidos perderam relevância, enquanto o desempenho da safra americana e a demanda por biodiesel ganham força.
A ampliação da meta de produção de biodiesel nos Estados Unidos tem impulsionado a demanda por óleo de soja, elevando os preços e estimulando o esmagamento do grão. A expectativa é de que esse movimento continue sustentando o mercado, mesmo diante de uma produção global maior.
Outro ponto de atenção destacado por Molinari é o relatório de oferta e demanda do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), previsto para 12 de maio. O documento pode trazer revisões nas exportações de milho americano, que já superam em cerca de 16 milhões de toneladas o volume do ano anterior, indicando possível redução dos estoques.
O acordo comercial entre Estados Unidos e China também deve alterar o fluxo de comércio, com previsão de aumento significativo das compras chinesas de soja americana nos próximos anos. Essa mudança pode reduzir a liquidez do produto brasileiro no último trimestre, período em que tradicionalmente o país perde competitividade.
Além disso, o mercado acompanha impactos de conflitos internacionais. A alta do trigo, por exemplo, está relacionada às restrições nas exportações da Rússia, o que acaba dando suporte aos preços do milho. Já o principal efeito negativo para o Brasil, no curto prazo, é o aumento no custo de insumos, como a ureia, que praticamente dobrou de preço.
Diante de todo esse cenário, a recomendação de Molinari é cautela na comercialização, especialmente à espera do relatório do USDA. Fatores como clima nos Estados Unidos, comportamento da China, o andamento das exportações brasileiras e preços de óleos vegetais devem seguir no radar do mercado nos próximos meses.
ASSUNTO ESTRATÉGICO
O vice-presidente da Faesc, Clemerson Argenton Pedrozo, avaliou positivamente o evento e destacou que a apresentação foi marcada pelo profundo conhecimento sobre as mais diversas variáveis, ou seja, questões climáticas, geopolíticas, tributárias, econômicas e de câmbio. “Isso demonstra a competência de Molinari e também a qualidade de toda a sua equipe. É por isso que o Sistema Faesc/Senar e os Sindicatos Rurais, com muita convicção, mantêm essa sólida parceria com a Safras & Mercado.”
O dirigente também anunciou a próxima palestra do ciclo que será no mês de junho e terá como tema os fertilizantes, outro assunto extremamente relevante. “O encontro está marcado para o dia 22 de junho e contará com a palestrante Maísa Romanello. Esperamos ter uma participação tão expressiva quanto a de hoje”.
Clemerson Pedrozo reforçou que a necessidade de informação qualificada é uma ferramenta essencial para a tomada de decisão em um ambiente cada vez mais complexo e volátil. “Quero agradecer, também em nome do nosso presidente José Zeferino Pedrozo, a todos os dirigentes sindicais, bem como aos técnicos, produtores e demais representantes do setor que nos acompanharam”.
Relacionadas

Giro do Boi na B3: Confira os ajustes futuros da arroba e a referência para Mato Grosso hoje (04/11)

Consumo doméstico deve frear disparada da arroba em 2027, apesar de oferta restrita, projeta Rabobank

Puxada por Mato Grosso, produção brasileira de soja deve bater recorde de 184,95 milhões de toneladas, projeta StoneX

Brasil abre mercado em Bangladesh e Colômbia para pecuária

Demanda aquecida impulsiona trigo em Chicago; soja e milho recuam com avanço da colheita nos EUA

