Exportações de carne bovina batem recorde, mas barreiras comerciais preocupam o setor

O setor brasileiro de carne bovina encerrou o primeiro semestre de 2026 com resultados históricos nas exportações, mas inicia a segunda metade do ano diante de um cenário mais complexo para o comércio internacional. O esgotamento da cota de importação da China e a possibilidade de novas restrições sanitárias impostas pela União Europeia acendem um sinal de alerta para frigoríficos e pecuaristas, que podem enfrentar um ritmo menor de embarques nos próximos meses.
A avaliação é da Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo), que vê nas barreiras comerciais os principais desafios para manter o desempenho registrado entre janeiro e junho. Embora a demanda internacional continue aquecida, especialmente em mercados como Estados Unidos e Chile, a dependência da China e as exigências sanitárias europeias devem redesenhar a estratégia do setor no restante do ano.
Os números do primeiro semestre, no entanto, confirmam o bom momento da pecuária brasileira no mercado externo. Dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), apontam que o Brasil exportou 1,811 milhão de toneladas de carne bovina no período, crescimento de 7,3% em relação aos seis primeiros meses de 2025. Em receita, os embarques renderam US$ 9,929 bilhões, alta de 33,4%, estabelecendo o maior faturamento e o maior volume já registrados para um primeiro semestre.
O desempenho foi impulsionado, principalmente, pela forte demanda da China, que manteve a liderança entre os destinos da carne bovina brasileira. Somente no primeiro semestre, o país asiático importou US$ 4,818 bilhões em carne e subprodutos bovinos, avanço de 50,3% sobre igual período do ano passado. Em volume, foram embarcadas 774,7 mil toneladas, aumento de 22,6%.
Apesar desses números, o principal mercado da carne brasileira também representa hoje o maior motivo de preocupação do setor.
Cota chinesa muda cenário
Desde o início deste ano, a China passou a adotar um sistema de cotas para a importação de carne bovina brasileira. Segundo a Abrafrigo, o limite de 1,106 milhão de toneladas destinado ao Brasil em 2026 já foi integralmente utilizado com os embarques realizados até junho.
Como a contagem considera a data de chegada da carga aos portos chineses — e não o momento do embarque no Brasil — parte das exportações realizadas no fim de 2025 também entrou na cota deste ano, acelerando o esgotamento do volume permitido.
Na prática, os frigoríficos interromperam os embarques destinados à China em julho, uma vez que as vendas realizadas acima da cota passam a pagar uma sobretaxa de 55%, reduzindo significativamente a competitividade da carne brasileira.
A estimativa da Abrafrigo é que essa limitação possa reduzir em aproximadamente US$ 4 bilhões as exportações brasileiras para a China ao longo de 2026, na comparação com o ano anterior. A expectativa do setor é de que parte desse impacto possa ser revertida caso novos embarques sejam programados para o fim do ano, com chegada aos portos chineses apenas em janeiro de 2027, quando começa a valer a cota do próximo exercício.
União Europeia endurece exigências
Outro fator que preocupa o setor é a entrada em vigor das novas exigências sanitárias da União Europeia, prevista para 3 de setembro.
O bloco europeu passará a exigir certificação comprovando que os animais destinados à exportação não receberam antimicrobianos utilizados como promotores de crescimento. Caso o Brasil não apresente um modelo de certificação aceito pelas autoridades europeias até a data estabelecida, as compras poderão ser suspensas.
As negociações entre o governo brasileiro e os órgãos sanitários da União Europeia continuam em andamento, mas ainda não há definição sobre o formato da certificação exigida.
Mesmo diante da possibilidade de restrições, as exportações para o mercado europeu cresceram 35,3% no primeiro semestre e somaram US$ 482,6 milhões.
Estados Unidos ampliam compras
Enquanto China e União Europeia impõem novos desafios, outros mercados vêm ampliando sua participação nas exportações brasileiras.
Os Estados Unidos consolidaram a segunda posição entre os principais compradores da carne bovina nacional. As importações cresceram 14,8% no primeiro semestre, alcançando US$ 1,465 bilhão. Considerando apenas a carne bovina in natura, o faturamento avançou 41%, chegando a US$ 1,116 bilhão, enquanto o volume exportado aumentou 17,3%, totalizando 183,6 mil toneladas.
Segundo a Abrafrigo, o mercado americano deve permanecer favorável ao produto brasileiro. Além de a carne bovina ter ficado fora das novas tarifas anunciadas pelos Estados Unidos para produtos brasileiros, o país enfrenta redução de seu rebanho bovino e preços internos elevados, fatores que mantêm aquecida a demanda por importações.
O Chile também ampliou as compras da proteína brasileira. No primeiro semestre, o país importou US$ 419,6 milhões em carne bovina, crescimento de 33,1% em relação ao mesmo período de 2025, com aumento de 20% no volume embarcado.
Diversificação será estratégica
Embora a China continue sendo o principal destino da carne bovina brasileira — responsável por quase metade da receita obtida com as exportações do setor — a conjuntura internacional reforça a necessidade de ampliar a presença em outros mercados.
Para a Abrafrigo, o desempenho histórico alcançado no primeiro semestre demonstra a competitividade da proteína brasileira, mas o segundo semestre exigirá maior capacidade de adaptação diante das mudanças regulatórias e comerciais impostas pelos principais parceiros.
Com a demanda internacional ainda aquecida e mercados alternativos ganhando espaço, a estratégia do setor passa pela diversificação dos destinos das exportações, reduzindo a dependência do mercado chinês e buscando minimizar os impactos provocados pelas novas barreiras comerciais.
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