Michelle relata humilhação por Flávio e expõe divisão no núcleo político dos Bolsonaro: "Para ele e alguns que o cercam, eu não entendo de política"
Ex-primeira-dama afirma que foi desrespeitada pelo senador após criticar aliança do PL com Ciro Gomes no Ceará; episódio evidencia tensões internas na sucessão política de Jair Bolsonaro

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) tornou pública nesta quarta-feira (24) uma divergência que vinha sendo tratada nos bastidores do Partido Liberal e da família Bolsonaro. Em vídeos divulgados nas redes sociais, ela afirmou ter sido humilhada, desrespeitada e maltratada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), escolhido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro como candidato do grupo à Presidência da República nas eleições de outubro.
As declarações abriram uma nova frente de desgaste dentro do principal campo da direita brasileira e evidenciaram divergências que já eram percebidas por dirigentes partidários desde a definição de Flávio como sucessor político do ex-presidente, no fim de 2025.
Nas postagens de aproximadamente 30 minutos cada, Michelle detalha um episódio que ocorreu após um evento político realizado no Ceará, quando ela criticou publicamente a articulação do PL para construir uma aliança com o ex-governador Ciro Gomes (PSDB), pré-candidato ao governo do estado.
Ao longo do depoimento, Michelle se refere a Flávio pelo nome, como "meu enteado" e "pré-candidato", sem usar o sobrenome "Bolsonaro" em nenhum momento.
Segundo a ex-primeira-dama, após suas declarações ela tentou contato com Flávio Bolsonaro para discutir o assunto. O retorno da ligação, porém, teria resultado em um confronto.
"Voltando ao Flávio. Telefonei para ele, tentei algumas vezes, mas ele não atendeu. Algumas horas depois da postagem, ele retornou a ligação. Mas, sinceramente, para falar o que ele me falou, seria melhor se ele não tivesse ligado. Ele foi muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou o telefone. E eu não tinha feito nada contra ele", afirmou a ex-primeira-dama.", afirmou.
Michelle relatou que o senador teria dito que ela deveria permanecer afastada das decisões partidárias e que não entenderia de política por ter chegado recentemente ao ambiente político nacional.
"Ele disse que seria melhor eu ficar fora das decisões do partido. Disse que eu havia chegado ontem e não entendia nada de política. Diante dessa humilhação, eu disse a ele que estava tudo bem. Entendi que ele não queria o meu apoio ou que este era insignificante. E então eu me recolhi. Fiquei na minha e assim permaneço", continuou.
A ex-primeira-dama afirmou no vídeo que, depois de Flávio, os outros filhos de Jair Bolsonaro fizeram postagens similares em resposta ao seu posicionamento no Ceará. Para ela, a reação pareceu algo "premeditado".
"Para ele e alguns que o cercam, eu não entendo de política. Tudo bem, eu me recolhi. E desde esse dia, ele não me procurou mais. Eu também não procurei, porque estou respeitando o que ele falou e é só isso", disse Michelle.
Divergência teve origem em aliança no Ceará
O estopim da crise foi uma articulação conduzida pelo PL no Ceará para aproximar o partido do ex-governador Ciro Gomes, adversário histórico de Jair Bolsonaro.
Durante um evento realizado em Fortaleza no ano passado, Michelle criticou publicamente a movimentação política ao discursar diante de lideranças locais do partido.
Na ocasião, dirigindo-se ao deputado federal André Fernandes (PL-CE), uma das principais lideranças bolsonaristas do estado, ela afirmou que a aliança havia sido construída de forma precipitada.
"Fazer aliança com o homem que é contra o maior líder da direita, assim não dá", declarou.
A aproximação entre PL e Ciro Gomes fazia parte da estratégia para fortalecer o palanque presidencial de Flávio Bolsonaro no Nordeste. Pesquisa Quaest divulgada neste ano aponta Ciro na liderança da disputa pelo Governo do Ceará, cenário que tornou o ex-governador peça importante nas negociações locais.
Michelle diz que se afastou da pré-campanha
Nos vídeos, Michelle afirmou que decidiu se recolher das articulações políticas após o episódio envolvendo Flávio.
Ela também negou que tenha condicionado apoio à candidatura presidencial do senador a um pedido público de desculpas, como chegou a ser especulado nos bastidores.
"Nunca pedi desculpas públicas de ninguém. Eu já liberei o perdão há muito tempo", afirmou.
A ex-primeira-dama também declarou que não mantém diálogo com Flávio desde o episódio, embora o senador frequente regularmente a residência da família.
"Flávio vai à minha casa toda semana. Se ele realmente quisesse falar comigo, já teria falado", disse.
Sinais de desgaste já vinham sendo observados
Embora a manifestação pública tenha surpreendido parte da cúpula do PL, o distanciamento entre Michelle e setores da família Bolsonaro já vinha sendo percebido nos últimos meses.
Desde que Jair Bolsonaro anunciou Flávio como seu candidato ao Palácio do Planalto, dirigentes partidários identificaram uma participação discreta da ex-primeira-dama na construção da pré-campanha presidencial.
Nos bastidores, integrantes do partido relatavam desconforto crescente em torno da divisão de espaços e da condução das articulações políticas para 2026.
O cenário ganhou relevância porque Michelle aparece há anos entre as principais lideranças do campo conservador, especialmente junto ao eleitorado feminino e evangélico. Pesquisas divulgadas antes da definição da candidatura de Flávio chegaram a apontá-la como uma das alternativas mais competitivas da direita para a sucessão presidencial.
Ataques e acusações de articulação interna
Michelle também afirmou que, após o desentendimento com Flávio, outros filhos de Jair Bolsonaro passaram a fazer manifestações semelhantes nas redes sociais, o que, segundo ela, indicaria uma ação coordenada.
Sem citar nomes diretamente, a ex-primeira-dama declarou ainda que sofre ataques frequentes promovidos por pessoas ligadas ao grupo político que atualmente estão fora do Brasil.
Ela afirmou que a situação tem provocado sofrimento à filha Laura Bolsonaro, que acompanha a repercussão dos conflitos familiares nas redes sociais.
"Eles não pensam no que estão provocando na vida da minha filha", declarou.
Flávio busca reduzir desgaste
Após a repercussão das declarações, Flávio Bolsonaro divulgou manifestação pública em tom conciliador.
O senador afirmou ter respeito pela ex-primeira-dama e reconheceu sua importância para o partido e para a trajetória política do ex-presidente.
Ele também pediu desculpas caso alguma fala tenha sido interpretada como ofensiva.
A reação foi interpretada por integrantes do PL como uma tentativa de evitar que a crise se transformasse em um problema eleitoral durante a reta final da campanha presidencial.
Michelle pede união da direita
Na manhã desta quinta-feira (25), Michelle voltou às redes sociais para tentar reduzir a repercussão do episódio.
Em publicação, ela afirmou que não tem "raiva de ninguém", negou a existência de uma disputa interna e defendeu a união das forças conservadoras contra o governo federal.
"Vamos todos trabalhar juntos para derrotar o atual desgoverno. Não há briga, nem competição", escreveu.
Apesar do tom conciliador adotado posteriormente, a manifestação pública da ex-primeira-dama revelou pela primeira vez divergências internas envolvendo a família Bolsonaro e o projeto político construído para a sucessão do ex-presidente.
Para dirigentes do PL, o episódio expõe dificuldades de acomodação entre diferentes grupos que disputam influência dentro do bolsonarismo e ocorre em um momento estratégico, quando a legenda intensifica a montagem dos palanques estaduais e consolida sua campanha presidencial para as eleições de outubro.
Assista vídeos:
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