Após o início das férias coletivas em unidades frigoríficas da JBS em Água Boa e Pedra Preta, o setor pecuário de Mato Grosso passou a demonstrar preocupação com os efeitos da medida sobre a cadeia produtiva. Nesta sexta-feira (17), a Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat) divulgou nota alertando para os impactos já percebidos no campo.
Na semana passada, a JBS anunciou férias coletivas de aproximadamente 20 dias para funcionários das duas unidades no estado, com início em 13 de abril. A decisão foi motivada pelo alto custo do boi gordo, que tem pressionado as margens da indústria frigorífica. A medida busca ajustar o ritmo de produção diante da dificuldade de aquisição de animais para abate.
Além da JBS, outras empresas do setor também adotaram ajustes operacionais. A MBRF, por exemplo, interrompeu uma linha de produção em sua unidade em Várzea Grande, reforçando o cenário de desaceleração pontual na indústria.
Dentre essas plantas frigoríficas, apenas a região de Várzea Grande é habilitada para exportar carne bovina para China, sendo que as demais atendem apenas o mercado interno.
De acordo com a Acrimat, a redução na capacidade de abate ocorre em um momento sensível, marcado por margens pressionadas e dificuldades logísticas, especialmente em regiões mais afastadas, como o Vale do Araguaia. Nessas localidades, a menor oferta de plantas em operação amplia os custos e limita as alternativas de escoamento da produção.
A entidade destaca que o principal efeito imediato é sobre a liquidez do produtor rural. Com menos frigoríficos operando, a comercialização de animais prontos para o abate se torna mais difícil, comprometendo o fluxo de caixa das propriedades e o planejamento da atividade.
“O cenário gera insegurança em toda a cadeia produtiva, principalmente diante da redução da demanda por abate em um período já desafiador”, aponta a associação, em nota.
Valorização do boi
O movimento ocorre em um contexto de valorização do boi gordo, oferta restrita de gado terminado, fator que continua sustentando a alta da arroba em Mato Grosso. De acordo com a Scot Consultoria, frigoríficos têm pago os preços pedidos pelos pecuaristas para conseguir completar as escalas de abate, o que elevou as cotações em todas as regiões do estado.
Atualmente, o boi gordo é negociado, em média, entre R$ 357,00/@ e R$ 360,00/@, com registros de altas diárias de até R$ 3,00/@. A vaca varia de R$ 327,00/@ a R$ 330,00/@, enquanto a novilha é cotada entre R$ 337,00/@ e R$ 347,00/@. As escalas de abate seguem encurtadas, girando entre quatro e oito dias, o que evidencia a dificuldade da indústria em manter o ritmo de produção.
O chamado “boi China” — animal que atende aos protocolos sanitários exigidos pelo mercado chinês, como idade mais jovem e rastreabilidade — também registra valorização e já é negociado a cerca de R$ 365,00/@. Esse padrão tem garantido um ágio de até R$ 8,00/@ em relação ao boi comum, impulsionado pela forte demanda externa.
Além do mercado físico, dados da Hedge Agro apontam mudanças recentes na atuação dos frigoríficos na B3. Na semana de 26 de março, as indústrias assumiram posição compradora de 4.598 contratos. Já na semana seguinte, houve uma reversão da estratégia, com ampliação da posição vendida em 6.249 contratos.
Segundo a consultoria, o movimento indica uma atuação mais tática no curto prazo, com busca por proteção em horizontes mais longos, diante da volatilidade do mercado.
Veja nota da Acrimat na íntegra:
A Acrimat manifesta preocupação com o anúncio de férias coletivas em indústrias frigoríficas de Mato Grosso.
A medida agrava desafios logísticos já existentes, especialmente em regiões mais distantes como o Vale do Araguaia, elevando custos e dificultando o escoamento da produção.
Em um cenário de margens pressionadas, a redução da capacidade de abate impacta diretamente o planejamento e a liquidez, gerando insegurança na cadeia produtiva.
A entidade reforça a importância do diálogo entre indústria e produtores para a construção de soluções que garantam previsibilidade e segurança à pecuária do estado.