“Saio pela mesma razão pela qual entrei: lealdade”, diz Mauro Carvalho ao renunciar Casa Civil

O secretário-chefe da Casa Civil de Mato Grosso, Mauro Carvalho, renunciou ao cargo nesta terça-feira (11), dias após ser alcançado por medidas judiciais no âmbito da Operação Heritage, da Polícia Federal. A investigação, autorizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), apura suspeitas relacionadas ao acordo de R$ 308,1 milhões firmado entre o Governo de Mato Grosso e a empresa Oi.
Por meio de carta, Carvalho informou que decidiu deixar a função para se dedicar à família, às empresas e ao esclarecimento dos fatos investigados. Na carta de renúncia, afirmou que também pretende provar sua inocência no âmbito da Operação Heritage.
“Deixo o cargo para me dedicar inteiramente à minha família, às minhas empresas e esclarecer estes fatos e provar a minha inocência”, declarou.
A saída ocorre em um momento de pressão sobre o grupo político liderado pelo ex-governador Mauro Mendes (União Brasil), que também está entre os investigados pela operação. O deputado federal Fábio Garcia (União Brasil), aliado de Mendes e nome que integra as articulações políticas do grupo, também foi alcançado pela investigação.
Medidas determinadas pelo STF
A Operação Heritage foi deflagrada pela Polícia Federal para investigar possíveis irregularidades envolvendo o acordo firmado entre o Estado e a Oi. As medidas foram autorizadas pelo ministro Flávio Dino, do STF.
Entre as determinações judiciais estão apreensões, bloqueios de bens e outras medidas cautelares contra investigados. Mauro Carvalho teve o passaporte apreendido e está submetido a restrições determinadas pela Justiça, entre elas a proibição de manter contato com pessoas relacionadas à investigação.
As medidas, contudo, fazem parte da fase de apuração e não representam condenação dos investigados.
O próprio Carvalho fez questão de destacar esse ponto ao comentar a operação.
“Isto é uma investigação — e investigação não é condenação. Não fui denunciado, não estou sendo processado criminalmente e não fui condenado”, afirmou.
Segundo ele, a decisão judicial que autorizou as medidas não estabelece culpa dos investigados, mas determina que os fatos sejam apurados.
“A própria decisão diz com todas as letras, que não está afirmando a culpa de ninguém: ela apenas autoriza que os fatos sejam apurados. Apurar é o começo do caminho. Julgar é o fim. Estamos no começo”, disse.
Relação com o grupo político
Na carta, Carvalho também relembrou o retorno à Casa Civil. Segundo ele, o convite foi feito em dezembro de 2025 pelo então governador Mauro Mendes e pelo atual governador Otaviano Pivetta (Republicanos).
Ele afirmou que inicialmente recusou o convite, mas posteriormente decidiu aceitar por “gratidão” e “lealdade” ao grupo político.
“Respondi sim, por gratidão e por lealdade a um grupo político do qual nunca me afastei, e assumi a Casa Civil em abril/2026. Saio hoje pela mesma razão pela qual entrei: lealdade”, declarou.
Acordo com a Oi
A investigação da Polícia Federal envolve o acordo de aproximadamente R$ 308 milhões firmado pelo Governo de Mato Grosso com a Oi para encerrar uma disputa tributária.
A apuração busca esclarecer a movimentação dos valores e possíveis relações entre os recursos do acordo e pessoas ligadas ao grupo político investigado.
Carvalho negou qualquer participação ou benefício no negócio e ressaltou que não ocupava cargo público quando o acordo foi firmado.
A investigação ainda está em andamento, e os envolvidos negam irregularidades.
Com a renúncia, Mauro Carvalho deixa a chefia da Casa Civil justamente no momento em que a Operação Heritage amplia a pressão sobre integrantes do grupo político ao qual pertence.
Veja carta na íntegra:
"Aos mato-grossenses,
Comunico que deixo, nesta data, o cargo de Secretário-Chefe da Casa Civil do Estado de Mato Grosso.
Não retornei ao serviço público por ambição nem por vaidade. Eu havia deixado a Casa Civil em julho/2023 para assumir o Senado Federal, e não tinha nenhuma intenção de voltar.
Em dezembro de 2025, veio um novo convite do Otaviano Pivetta e Mauro Mendes, e no primeiro momento eu não aceitei. Levei algumas semanas para responder. Respondi sim, por gratidão e por lealdade a um grupo político do qual nunca me afastei, e assumi a Casa Civil em abril/2026. Saio hoje pela mesma razão pela qual entrei: lealdade.
Deixo o cargo para me dedicar inteiramente à minha família, às minhas empresas e esclarecer estes fatos e provar a minha inocência.
Entre dezembro de 2023 e abril de 2024 — período em que tramitou o processo da Oi — eu já não ocupava nenhum cargo público, nem federal nem estadual, de modo que não poderia influenciar em absolutamente nada a decisão de firmar ou não o acordo.
Saio de pé e com a consciência tranquila.
Registro, com serenidade, três fatos objetivos e verificáveis:
Primeiro. O afastamento do meu cargo foi requerido pela autoridade policial e foi indeferido pelo Supremo Tribunal Federal que negou a medida, acolhendo a manifestação da Procuradoria-Geral da República no sentido de que não havia indício de uso do meu cargo para qualquer finalidade ilícita. Não saio, portanto, por determinação judicial. Saio por decisão tomada por mim em conjunto com a minha família e com o Governador do Estado.
Segundo. Isto é uma investigação — e investigação não é condenação. Não fui denunciado, não estou sendo processado criminalmente e não fui condenado. A própria decisão diz com todas as letras, que não está afirmando a culpa de ninguém: ela apenas autoriza que os fatos sejam apurados. Apurar é o começo do caminho. Julgar é o fim. Estamos no começo, e eu...
Terceiro. Reafirmo integralmente o que já declarei publicamente em nota, não participei do acordo e não me beneficiei. Nenhum recurso originário do acordo firmado com a Oi foi utilizado em benefício próprio ou da minha família. Todo valor aportado pela minha família nas empresas de que participamos decorre de recursos do meu grupo empresarial. Na decisão, não me é atribuído nenhum ato concreto: meu nome figura por vínculo — e vínculo não é conduta. Tenho a convicção de que, ao final do processo, o caso será esclarecido e a minha inocência e a da minha família comprovadas.
Sobre a ação que corre no Tribunal de Justiça de Mato Grosso, e que trata dos mesmos fatos: ela não diz, em momento algum, que eu fiz alguma coisa. E, quando trata dos meus familiares, o próprio denunciante escreveu que o benefício teria sido indireto, ou seja, nem ele aponta um pagamento, um contrato, um ato, pois não existe. Quem tem prova não precisa escrever "indiretamente".
Deixo registrada minha solidariedade ao Procurador-Geral do Estado Dr. Francisco Lopes e ao Deputado Federal Fábio Garcia, que nesta mesma semana tiveram a honra exposta antes de qualquer contraditório.
Ao Governador Otaviano Pivetta, minha gratidão pela confiança e meu desejo sincero de que o Governo siga em frente. Aos servidores da Casa Civil, meu respeito e admiração. À minha família, que carregou o peso maior sem ter escolhido nada disso, todo o meu amor.
Peço a Deus que a verdade prevaleça, e que ninguém seja condenado sem culpa, como aconteceu com Jesus diante de Pilatos. Que Deus abençoe todos nós".
Mauro Carvalho Junior
Cuiabá/MT, 11 de agosto de 2026.
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