Setembro Amarelo: como identificar sinais de que alguém está precisando de ajuda

Neste 10 de setembro, Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, o Setembro Amarelo reforça a importância de falar sobre um assunto que ainda encontra resistência, mas que pode estar mais próximo da realidade de muitas famílias do que se imagina. Um estudo realizado pela Unicamp aponta que 17% dos brasileiros já pensaram seriamente em tirar a própria vida em algum momento, enquanto 4,8% chegaram a elaborar um plano.
Por trás desses números, existem pessoas que enfrentam sofrimento emocional, muitas vezes, em silêncio. É justamente por isso que o Setembro Amarelo de 2026 traz como tema “Escutar é estar presente”, destacando a importância de saber ouvir e oferecer acolhimento a quem atravessa um momento difícil.
O Mega Diário conversou com a psicóloga Giovanna Prates para entender como a escuta pode contribuir para a prevenção, quais sinais podem ser percebidos no cotidiano e como familiares e amigos podem agir diante de situações de sofrimento emocional.
Segundo Giovanna, escutar de forma ativa significa estar disponível e acessível, sem julgar ou minimizar aquilo que a outra pessoa está sentindo. Para ela, é preciso compreender que, naquele momento, aquela emoção é real e intensa, oferecendo acolhimento e ajudando a direcionar o olhar para possibilidades que tragam esperança.
“A chamada escuta ativa exige compreender que, naquele momento, a emoção vivida pela pessoa é real e intensa. Precisamos acolher e tentar direcionar o olhar para algo que traz esperança”, explica.
Mudanças de comportamento podem indicar sofrimento
Segundo a psicóloga, perceber que alguém precisa de ajuda pode ser mais difícil quando não existe proximidade. Já no convívio diário, algumas alterações podem chamar a atenção, principalmente quando fogem do comportamento habitual daquela pessoa.
Entre os sinais estão ficar mais em silêncio, deixar de participar de atividades das quais antes gostava, apresentar apatia, falar com um tom de voz mais baixo ou fazer comentários que não eram comuns.
“Se for alguém próximo, até conseguimos perceber no tom de voz, em algum comentário. Mas quando estamos mais distantes, não conseguimos decifrar esses códigos”, afirma Giovanna.
A orientação, nesses casos, é demonstrar disponibilidade e deixar claro que a pessoa pode contar com alguém de confiança.
Para a psicóloga, a prevenção também passa pela capacidade de reconhecer esses sinais e criar um ambiente seguro para que sentimentos e pensamentos possam ser expressados.
Sofrimento emocional não tem perfil específico
A psicóloga lembra que, apesar dos avanços nas discussões sobre saúde mental, ainda é comum que muitas pessoas enfrentem sofrimento psíquico em silêncio. Medo de parecer frágil, vergonha de se expor ou receio de preocupar os outros são fatores que levam indivíduos a esconder sentimentos como tristeza profunda, ansiedade intensa e exaustão emocional.
“Não existe perfil específico para esse sofrimento, não existe mais propenso ou não. Existe um nível de sofrimento que pode acontecer com qualquer pessoa”, afirma.
Ela explica ainda que quadros como depressão nem sempre são percebidos de forma evidente. As mudanças podem começar de maneira discreta, com alterações no comportamento que passam despercebidas por familiares e amigos.
Segundo Giovanna, tristeza e ansiedade fazem parte da experiência humana. A preocupação aumenta quando essas emoções passam a interferir de forma significativa na rotina e quando a pessoa não consegue mais se autorregular.
“A tristeza é uma emoção intrínseca ao ser humano, todos nós sentimos tristeza em algum momento. Uma emoção que vamos aprendendo a lidar ao longo da vida. A ansiedade também é uma emoção intrínseca, ela nos ajuda a sobreviver e nos alertar em momentos da vida, porém ela começa a ser preocupante e se torna um transtorno mental quando ela excede o ‘normal’ e quando não conseguimos mais nos autorregular em relação a ela, ficamos em alerta constante. Então ela começa a dominar nosso dia a dia”, destaca.
“A crise ansiosa é um sintoma de que se faz necessária ajuda profissional para aprender autorregulação e ressignificar o que ocasionou no cérebro esse erro de interpretação, que fez ele ficar em alerta constante”, completa.
No caso da depressão, ela ressalta que não se trata simplesmente de estar triste. A avaliação considera fatores como duração, intensidade e mudanças no comportamento.
“A depressão é diferente, não é uma tristeza só. É a tristeza que fica por dias, com uma intensidade maior, pensamentos negativos. Podemos dizer que temos alguns sintomas que caracterizam a depressão e neles vamos observar a duração, intensidade e comportamento da pessoa. Esta é a hora de procurar ajuda profissional. É como mencionei antes: fugiu muito do habitual, está sentindo que não tem controle, que tem uma apatia ou desânimo muito grande, quando deixa de fazer coisas que gosta, ou muitos pensamentos intrusivos negativos, busque ajuda, peça ajuda.”
O que fazer quando alguém pede ajuda
Giovanna alerta que, quando uma pessoa decide compartilhar sua dor, ela demonstra confiança e vulnerabilidade. Por isso, a forma como essa situação é recebida pode fazer diferença, e a orientação é levar o relato a sério, oferecendo escuta e acolhimento.
“Se alguém disser isso, significa que ela quer ajuda e que confia em você”, explica Giovanna.
Quando existe autoridade ou responsabilidade direta sobre aquela pessoa, como no caso de familiares, a recomendação é buscar auxílio profissional. Quando não existe essa possibilidade, ainda é possível oferecer ajuda para encontrar um profissional e permanecer disponível para ouvir.
A psicóloga ressalta, porém, que ninguém deve assumir sozinho a responsabilidade pelo sofrimento de outra pessoa. A família, os amigos e o próprio indivíduo podem precisar de apoio para lidar com a situação.
“Você deve fazer o seu papel, mas não deve guardar só para você essa responsabilidade”, afirma.
Adolescentes podem esconder sinais
Entre jovens e adolescentes, alguns sinais podem passar despercebidos, especialmente quando existe distanciamento emocional entre pais e filhos.
Para Giovanna, a proximidade e o diálogo cotidiano são importantes para que os pais percebam mudanças no comportamento. A recomendação é tratar o assunto de maneira natural, manter espaço aberto para conversas e reforçar que problemas e momentos difíceis podem ser passageiros.
“Agir naturalmente, trazer a conversa para o cotidiano, falar sobre a importância de falarem e pedirem ajuda. Também reforçar como os problemas do agora são passageiros e que, depois que passa, vemos que demos conta. Mais do que esperar uma situação de crise para conversar, a construção desse vínculo deve acontecer no dia a dia”, explica.
Quem ajuda também precisa de apoio
Outro ponto destacado pela psicóloga é que familiares e amigos também podem precisar de suporte ao acompanhar alguém em sofrimento.
Segundo ela, tentar resolver tudo sozinho pode aumentar a sobrecarga de quem está ajudando. Por isso, a responsabilidade deve ser compartilhada com profissionais e outros integrantes da família.
Promover saúde mental é responsabilidade de todos
A prevenção passa, segundo Giovanna, por reconhecer os sinais de sofrimento, compreender as emoções e, principalmente, criar espaços seguros para que a pessoa possa falar sobre o que está sentindo. O acompanhamento de profissionais como psicólogos e psiquiatras também é fundamental quando o sofrimento ultrapassa aquilo que a pessoa consegue administrar sozinha.
Para Giovanna, falar sobre o tema também é uma forma de enfrentar o tabu que ainda envolve a morte, o desejo e a finitude. Ela avalia que a discussão não deve ficar restrita ao mês de setembro, mas fazer parte do cotidiano durante todo o ano.
“A importância da prevenção é justamente a tentativa de diminuir a incidência de casos. Ao abordar o tema, o mais importante é trazer os sinais, ajudar a diferenciar as emoções e demonstrar um lugar seguro de acolhimento para qualquer que seja o pensamento”, afirma.
Segundo a psicóloga, quanto mais o assunto for discutido de maneira responsável e com empatia, maior pode ser a possibilidade de que a importância da vida permaneça presente para além da campanha.
CVV
Para quem precisa conversar, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito, sigiloso e voluntário pelo telefone 188, com atendimento 24 horas por dia. O serviço não substitui o acompanhamento profissional, mas pode ser um canal de acolhimento em momentos de sofrimento.
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