Mega Diário Cuiabá · Quarta-feira, 4 de novembro de 2026
MERCADO INSTAVÉL

Venda de soja em MT supera 63%, mas mercado segue travado diante de preços e câmbio

AGRO/SOJA

A comercialização da soja da safra 2025/26 em Mato Grosso já ultrapassou metade da produção estimada, mas o ritmo de novos negócios segue moderado em meio à volatilidade dos preços e às incertezas no câmbio.

Dados do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária apontam que, até março de 2026, as vendas atingiram 63,31% da produção prevista — avanço de 6,73 pontos percentuais em relação ao levantamento anterior e de 8,34 p.p. na comparação com o mesmo período do ano passado.

Apesar da evolução, o mercado segue com dificuldade para destravar novos negócios. Segundo o instituto, boa parte do volume já comercializado foi negociada de forma antecipada, enquanto produtores adotam postura mais cautelosa diante de preços considerados pouco atrativos.

O preço médio da soja no estado encerrou março em R$ 105,54 por saca, queda de 1,53% em relação a fevereiro. A desvalorização reflete, principalmente, o cenário geopolítico internacional e as oscilações no câmbio.

Na avaliação do consultor da Hedge Agro Consultoria, Renan Tapajós Figueiredo, a pressão sobre os preços também está ligada ao aumento da oferta no mercado.

"Em março, já havia muita soja no mercado. Então em média geral, é um período mais de pressão olhando pelo dados do Imea.  Então tem muito grão Entrando", aponta.

"O dólar não tá subindo, tá caindo, mas com a guerra, geralmente, o dólar costuma subir um pouco mais e o dólar pra cima é bom pra soja em reais, porque aí o mercado interno tem que corrigir um pouquinho mais, para tentar trazer o grão e deixar ele aqui. Então tem que pagar mais na soja e no milho pra compensar pro produtor", completa. 

Ele também destaca que os conflitos internacionais impactam diretamente os custos de produção e a rentabilidade no campo.

"Mas assim, o lado ruim dessa guerra, mesmo falando de produtor rural, além do fato de ser guerra, afeta muito a compra dos insumos, frete. Então fica mais caro as coisas, e acaba afetando muita margem do produtor rural. Então com esse dólar também em queda, pressionou bastante o soja e também tem a questão de demanda interna de mercado. Todo mundo colheu agora em março, tem bastante soja entrando agora no fluxo e acaba pressionando o preço."

Safra futura já começa a ser negociada

Mesmo com o cenário de pressão nos preços, a comercialização da safra 2026/27 também avançou, ainda que de forma inicial. Segundo o Imea, 7,31% da produção já foi negociada, alta de 3,35 pontos percentuais no comparativo mensal.

Os contratos foram fechados com preço médio de R$ 108,36 por saca, indicando leve recuperação em relação à safra atual, mas ainda sem força suficiente para acelerar o ritmo de vendas.

Para o consultor, esse movimento pode refletir tanto necessidade de caixa quanto estratégias de proteção.

"Mas pode ser uma necessidade de caixa ou uma questão de gestão de risco. Então eles têm as políticas de comercializações dele, tem que se travar um pouco, pode estar tentando fazer necessidade de caixa, mesmo assim como gestão. Comprei os insumos, eu tenho que travar alguma coisa para não entrar no risco. E esse grão chegar na frente, tá pior, porque isso é muito de política.

O consultor lembra que a tomada de decisão no campo tem exigido cada vez mais estratégia diante de um cenário de incertezas e margens pressionadas, neste sentido os produtores recorrem ao suporte técnico para definir o melhor momento de comercialização — ainda que isso nem sempre signifique fechar negócio no preço ideal.

Cenário de cautela

O mercado segue influenciado por uma combinação de fatores, como a volatilidade do dólar, as oscilações nas cotações internacionais — especialmente na Chicago Board of Trade — e as incertezas geopolíticas.

Além disso, a entrada concentrada da safra no mercado interno aumenta a pressão sobre os preços, enquanto a demanda global, principalmente da China, segue determinante para o comportamento das cotações.

Diante desse cenário, a tendência é de manutenção de uma postura mais conservadora por parte dos produtores, com foco em travas pontuais e espera por melhores oportunidades de comercialização.

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