Sucessão familiar também é papel do RH

As empresas familiares sustentam uma parcela significativa da economia brasileira e têm papel ainda mais expressivo no agronegócio. Movimentam cadeias produtivas, geram empregos e carregam décadas de história. Ainda assim, atravessar gerações continua sendo um dos maiores desafios desses negócios.
É nesse processo que o profissional de Recursos Humanos pode assumir um papel decisivo, ajudando a preparar pessoas, preservar a cultura organizacional e criar condições para a continuidade da empresa.
Em duas décadas trabalhando com esse tema, tenho visto que empresas que adiam essa discussão ficam mais vulneráveis na transição. Apesar disso, a sucessão ainda está longe de ser prioridade em muitos negócios familiares.
Segundo o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), a falta de planejamento sucessório pode colocar em risco a sobrevivência de cerca de 40% das empresas brasileiras até 2030. Entre as organizações sem um plano de sucessão, 72% não estão preparadas para reorganizar cargos de gestão e prevenir ou solucionar conflitos familiares.
O problema também aparece globalmente. Segundo relatório da Deloitte, apenas 36% das empresas familiares afirmam estar com o planejamento sucessório em dia para futuras transições de liderança.
Por trás desses números estão desafios como a centralização das decisões no fundador, a ausência de mecanismos de governança, a resistência à profissionalização da gestão e o medo da mudança.
Um dos maiores equívocos é enxergar a sucessão como um evento em que alguém deixa o comando e outra pessoa ocupa seu lugar. Para muitos fundadores, falar sobre sucessão pode soar como abrir mão do protagonismo. Afinal, conhecimento técnico e relações construídas durante décadas representam uma história de vida, não apenas patrimônio.
A transição envolve transmitir valores e conhecimento, reconhecendo que os sucessores assumirão a empresa em um contexto mais tecnológico, conectado e profissionalizado. Preservar a essência sem impedir a transformação é uma das partes mais delicadas desse processo.
Preparar a sucessão não significa descartar o fundador. Processos bem conduzidos aproveitam sua experiência, conhecimento do negócio e capacidade de transmitir a cultura construída ao longo dos anos. Seu papel pode se transformar, com atuação como mentor, conselheiro e referência para a próxima geração.
Nesse contexto, o RH é especialmente relevante. Por transitar entre lideranças, colaboradores e familiares, consegue compreender expectativas, identificar conflitos e construir pontes de diálogo em torno de um assunto muitas vezes tratado como tabu.
O trabalho define papéis, responsabilidades e mecanismos de governança. Herdeiros precisam ser preparados para assumir responsabilidades conforme demonstram capacidade, enquanto os fundadores precisam encontrar segurança sobre o lugar que continuarão ocupando.
O objetivo é preparar a organização para continuar crescendo independentemente de quem esteja no comando. Para o RH, isso exige sensibilidade, visão sistêmica, imparcialidade e capacidade de construir confiança.
A sucessão começa quando a organização entende que preparar pessoas para o futuro é tão estratégico quanto investir em tecnologia, produtividade ou expansão. Assegurar que uma empresa familiar continue escrevendo sua história quando uma nova geração assume o protagonismo talvez seja o maior legado que um profissional de RH pode deixar.
Edilene Bocchi é administradora, CEO da Vesi Consulting, especialista em gestão de negócios e gestão de pessoas.





