Mega Diário Cuiabá · Quinta-feira, 5 de novembro de 2026
INOVAÇÃO NO AGRO

Unicamp desenvolve tecnologia para combater percevejo que ameaça produção de soja no Brasil

SOJA

Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) desenvolveram uma tecnologia capaz de combater o percevejo-marrom (Euschistus heros), uma das principais pragas das lavouras de soja no Brasil. A solução utiliza uma técnica conhecida como RNA de interferência (RNAi), que atua diretamente sobre genes essenciais do inseto e pode reduzir a dependência de defensivos químicos no controle da praga.

A pesquisa ganha relevância nacional diante do peso da soja para o agronegócio brasileiro. O país é líder mundial na produção e exportação do grão, e o controle de pragas está entre os principais desafios enfrentados pelos produtores para preservar produtividade e qualidade da produção.

“Levando em consideração que o Brasil é um país tropical e muito quente, existem muitas pragas que podem afetar o cultivo de soja, mas o percevejo é o mais danoso a essa cultura”, explica o professor Henrique Marques de Souza, coordenador da pesquisa no Instituto de Biologia da Unicamp.

A tecnologia foi desenvolvida sem a necessidade de modificar geneticamente a planta de soja. Em vez disso, os pesquisadores trabalham diretamente sobre o organismo do percevejo, utilizando uma molécula de RNA de fita dupla capaz de provocar o silenciamento de genes considerados essenciais para a sobrevivência do inseto.

Como funciona a tecnologia

O mecanismo utilizado pelos pesquisadores aproveita um sistema natural de defesa presente nas células. Normalmente, o DNA produz RNA, que participa da produção de proteínas. O RNA de interferência interfere nesse processo ao levar a célula a identificar e eliminar uma sequência genética específica.

No caso do percevejo-marrom, os pesquisadores identificaram genes considerados fundamentais para funções como alimentação, desenvolvimento e reprodução. A partir dessas informações, produziram em laboratório moléculas de RNA de fita dupla correspondentes às sequências escolhidas.

Quando o percevejo entra em contato com esse material e o ingere, seu próprio organismo reconhece a sequência e desencadeia o processo de silenciamento do gene-alvo. Com a interrupção da produção da proteína essencial, o inseto pode morrer ou perder funções necessárias para sobreviver e se reproduzir.

“Estudamos a biologia de uma praga, no caso o percevejo, e identificamos qual gene, se removido, o levará à morte, a parar de se alimentar, ou de procriar. Podemos desenhar a fita dupla de acordo com o que é identificado como vital para o inseto”, detalha Souza.

Tecnologia busca maior precisão no controle da praga

Um dos principais diferenciais apontados pelos pesquisadores é a especificidade da tecnologia. Enquanto os inseticidas convencionais podem atingir diferentes organismos presentes no ambiente, a molécula de RNA é desenvolvida para atuar sobre sequências genéticas específicas do Euschistus heros.

A proposta pode reduzir os impactos sobre organismos que desempenham funções importantes no equilíbrio das lavouras, como insetos polinizadores e predadores naturais de outras pragas.

Outro aspecto destacado é a natureza biológica da solução, que permite sua degradação no ambiente.

A tecnologia, entretanto, não funciona como um inseticida de efeito imediato. O silenciamento gênico depende do tempo necessário para que o mecanismo biológico produza seus efeitos sobre o inseto. Por isso, a proposta é que a ferramenta seja utilizada dentro do Manejo Integrado de Pragas (MIP), em conjunto com outras estratégias de controle utilizadas no campo.

Pesquisa levou quatro anos

O desenvolvimento da tecnologia levou quatro anos e envolveu uma equipe formada por 15 profissionais, entre estudantes de pós-graduação, pesquisadores de iniciação científica e pós-doutorandos.

O trabalho foi realizado por meio de um acordo de pesquisa, desenvolvimento e inovação com a empresa TMG Tropical Melhoramento e Genética S.A., que participa como cotitular da patente e licenciada da tecnologia.

A proteção intelectual da inovação e o processo de submissão da patente tiveram participação da Agência de Inovação da Unicamp (Inova Unicamp), com a interveniência da Fundação de Desenvolvimento da Unicamp (Funcamp).

Avanço pode ampliar alternativas para o produtor

O desenvolvimento coloca a biotecnologia como uma das alternativas para enfrentar um problema recorrente nas lavouras brasileiras de soja. O percevejo-marrom é uma praga que ataca as plantas durante o desenvolvimento dos grãos e pode comprometer tanto a produtividade quanto a qualidade da produção.

A tecnologia desenvolvida pela Unicamp ainda precisa avançar nas etapas necessárias para sua aplicação comercial e integração às estratégias utilizadas pelos produtores. O objetivo, segundo os pesquisadores, é oferecer uma ferramenta de controle mais específica, capaz de atuar sobre a praga sem provocar os mesmos impactos de soluções de ação mais ampla.

Para um país cuja produção de soja possui importância estratégica para o mercado interno, para a indústria e para as exportações, o desenvolvimento de novas ferramentas de controle de pragas representa um avanço relevante para a agricultura brasileira.

Relacionadas